Tite começa no Botafogo com um contrato até dezembro de 2028 e duas tarefas conectadas: estabilizar uma equipe ameaçada pela irregularidade no Campeonato Brasileiro e participar da reconstrução do departamento de futebol. Aos 64 anos, o treinador volta ao trabalho depois de deixar o Cruzeiro em março e de passar seis meses como agente livre.
A estreia está prevista para este sábado (19), contra o Mirassol, no Maião, pela 28ª rodada do Brasileirão. O técnico iniciou os trabalhos com o elenco na quinta-feira (17), após acompanhar no Nilton Santos a vitória por 3 a 2 sobre o Grêmio. O resultado ampliou para sete pontos a distância do Botafogo em relação à zona de rebaixamento, conforme avaliação publicada pelo Terra. O Lance informou que a equipe ocupava a 11ª posição, com 35 pontos.
Há, porém, uma diferença na fotografia apresentada pelas fontes: a Goal descreveu o Botafogo na 14ª colocação, com quatro pontos de vantagem sobre o Z-4, além de uma sequência de seis partidas sem vencer antes do triunfo sobre o Grêmio. Independentemente da posição exata considerada em cada publicação, o diagnóstico converge para um time pressionado na reta final da competição.
Por que Tite aceitou o projeto
A contratação não foi apresentada como uma solução apenas para os jogos restantes do campeonato. Tite terá autonomia no departamento de futebol e participação no planejamento de médio prazo. O acordo foi construído em conversas com o presidente João Paulo Magalhães e o diretor de futebol Léo Coelho, que apresentaram ao treinador a ideia de reformular o clube e recuperar sua ambição esportiva.
Na apresentação, Tite afirmou que a relação estabelecida com os dirigentes, a história do Botafogo e o acolhimento recebido foram determinantes para a decisão. O treinador também destacou a possibilidade de desenvolver um processo de trabalho ao longo do tempo, condição que o diferenciou de outras sondagens que, segundo o Lance, não avançaram.
Logo após o anúncio, Tite esteve no vestiário, conversou com os jogadores e apoiou Rodrigo Bellão, que ocupava interinamente o cargo. O novo comandante também assistiu à vitória sobre o Grêmio e acompanhou de perto a reação da equipe em um fim de jogo dramático. O contato inicial com o elenco ocorreu, portanto, antes mesmo da primeira atividade sob sua orientação.
Um clube distante do cenário de 2024
O Botafogo chega à troca de comando depois de uma temporada marcada por eliminações e mudanças na comissão técnica. A equipe caiu na fase preliminar da Libertadores diante do Barcelona de Guayaquil, foi eliminada pela Chapecoense nas oitavas de final da Copa do Brasil e deixou a Copa Sul-Americana após perder por 6 a 2 para o Cienciano.
A instabilidade começou ainda com Martín Anselmi, contratado para suceder Davide Ancelotti e demitido em 22 de março. Rodrigo Bellão assumiu interinamente, antes da chegada de Franclim Carvalho. Com o português, o time somou dez vitórias, sete empates e cinco derrotas em 22 partidas, mas a derrota por 6 a 1 para o Cienciano, seguida do revés diante do Vitória, provocou sua saída em 18 de agosto. Bellão voltou ao comando provisório até o anúncio de Tite.
O cenário esportivo é diferente daquele construído após os títulos da Libertadores e do Campeonato Brasileiro de 2024. De acordo com a Goal, apenas Alex Telles e Vitinho permanecem entre os titulares daquela equipe campeã. A reformulação reduziu a continuidade do elenco e aumentou a responsabilidade sobre um treinador que terá de organizar um grupo com muitas mudanças recentes.
Fora de campo, o clube também atravessou dificuldades financeiras, uma pendência que resultou em transfer ban da Fifa e alterações na gestão da Sociedade Anônima do Futebol. Em agosto, John Textor deixou o comando direto, enquanto o investidor Gabriel de Alba passou a integrar a nova configuração. A temporada ainda teve vendas de jogadores importantes, como Marlon Freitas, Jefferson Savarino e Alexander Barboza.
Defesa é o primeiro problema a corrigir
Os números do Brasileirão indicam que a principal urgência está no sistema defensivo. A Goal apontou o Botafogo como dono da 16ª pior defesa da competição, com 41 gols sofridos. O ataque apresentava desempenho superior, com 38 gols marcados e a sétima melhor média do campeonato, mas a produção ofensiva era considerada irregular.
Danilo Santos aparecia como o principal jogador da equipe na temporada, embora sua produção tenha diminuído depois da Copa do Mundo. O volante dividia a artilharia do Botafogo no Brasileirão com Arthur Cabral, ambos com sete gols, dado que evidencia a distribuição pouco definida das responsabilidades ofensivas.
Na janela do meio do ano, o clube contratou nove jogadores para tentar equilibrar o elenco. Entre os reforços estão o meia-atacante Hakim Ziyech, o centroavante Tiquinho Soares e o atacante Danilo Pereira. A expectativa é que os novos nomes ajudem a reduzir a dependência de Danilo Santos e de Arthur Cabral na criação e na conclusão das jogadas.
O setor defensivo também recebeu peças. Os goleiros Gabriel Batista e Warleson, o zagueiro Arthur Chaves, emprestado pelo Hoffenheim, o lateral-esquerdo Paulinho e o zagueiro Lucas Monzón foram incorporados ao grupo. Caberá a Tite definir como utilizar os reforços e transformar um elenco reformulado em uma equipe mais segura.
Uma oportunidade para treinador e clube
O trabalho no Botafogo também terá peso na trajetória recente de Tite. Antes de chegar ao Rio de Janeiro, ele comandou o Cruzeiro entre janeiro e março, em 17 partidas, com oito vitórias, três empates e seis derrotas. O treinador conquistou o Campeonato Mineiro, mas deixou o clube quando a equipe ocupava a vice-lanterna do Brasileirão, após o empate por 3 a 3 com o Vasco.
Seu trabalho anterior havia sido no Flamengo, entre outubro de 2023 e setembro de 2024. Pelo clube, venceu o Campeonato Carioca de 2024, mas foi eliminado pelo Peñarol nas quartas de final da Libertadores. O último título de maior peso de Tite foi a Copa América de 2019, pela Seleção Brasileira, que ele dirigiu em duas Copas do Mundo.
Por isso, a passagem pelo Botafogo terá significado duplo. O clube precisa se afastar do risco de queda, recuperar organização e encerrar a temporada com uma base mais estável. Tite, por sua vez, busca mostrar que ainda pode conduzir um projeto de longo prazo em uma equipe de grande porte. O primeiro parâmetro será o duelo com o Mirassol, mas o acordo até 2028 indica que a avaliação ultrapassará os resultados imediatos.