O Santos encerrou o primeiro semestre de 2026 com um quadro financeiro mais grave do que o registrado no balancete encaminhado pela diretoria. O parecer do Conselho Fiscal aponta que o passivo do clube chegou a R$ 1.241.534.000 em 30 de junho. O documento será discutido pelo Conselho Deliberativo em reunião marcada para segunda-feira (14), na Vila Belmiro.
A administração santista, porém, apresenta outro valor para o endividamento: R$ 1.193.159.000. A diferença entre os números é de aproximadamente R$ 48,3 milhões e está ligada ao tratamento contábil dado ao acordo de confissão de dívida com a NR Sports, empresa relacionada à família de Neymar. A forma de reconhecimento desse compromisso deve estar entre os principais pontos de questionamento dos conselheiros.
O relatório também registra resultado negativo de R$ 119.699.764 no período analisado. O déficit apareceu mesmo com uma arrecadação superior à previsão orçamentária. Entre janeiro e junho, o clube obteve receita de R$ 126.459.383, enquanto o orçamento projetava R$ 91 milhões. O ganho de cerca de R$ 35,5 milhões, portanto, não foi suficiente para compensar a elevação das despesas e das obrigações financeiras.
Passivo cresceu enquanto clube revisava suas contas
Segundo o entendimento apresentado pelo Conselho Fiscal, o passivo total deveria ter sido reconhecido em R$ 1.163.739.000 em 31 de março e em R$ 1.241.534.000 ao fim de junho. A comparação representa aumento aproximado de R$ 77,8 milhões em três meses, considerando os critérios defendidos pelo órgão.
O acordo com a NR Sports ganhou peso nas discussões porque envolve compromissos assumidos pelo Santos relacionados ao contrato de Neymar. A divergência não se limita à escolha de uma forma de apresentação: ela altera o tamanho oficial das obrigações atribuídas ao clube e exige esclarecimentos sobre como a dívida foi registrada nas demonstrações financeiras.
O Conselho Fiscal recomendou maior rigor no acompanhamento da execução orçamentária, controle das despesas, regularização de obrigações vencidas e transparência na exposição dos passivos. O parecer também defendeu a criação de um plano objetivo para reduzir a exposição financeira e a dependência de receitas futuras.
O documento indica ainda que a gestão contratou um empréstimo de R$ 16.390.705,49 com o Banco Daycoval. A operação ampliou o comprometimento financeiro do Santos em um momento no qual a diretoria busca alternativas para manter os pagamentos e equilibrar o caixa.
Folha do elenco superou projeção do orçamento
A despesa com salários de jogadores foi uma das principais pressões sobre o resultado do primeiro semestre. O clube gastou R$ 74 milhões com a folha, diante de uma previsão de R$ 57 milhões. O excesso de R$ 17 milhões ocorreu durante um período de mudanças importantes no elenco e elevou o custo fixo da operação do futebol.
O relatório referente ao primeiro trimestre já havia apontado uma trajetória de alta. Em novembro de 2025, o gasto mensal com o grupo era de R$ 25 milhões. Em março de 2026, o valor havia subido para R$ 30 milhões. A evolução ajuda a explicar por que a receita acima do esperado não se converteu em melhora proporcional do resultado financeiro.
No intervalo analisado pelo parecer, o Santos contratou Lucas Veríssimo, Gabriel Menino, Christian Oliva, Rony, Gabigol e Moisés. A diretoria também adquiriu em definitivo o zagueiro Zé Ivaldo e o atacante Barreal. As movimentações aumentaram a folha e os compromissos associados ao futebol profissional.
O recorte do Conselho Fiscal termina em junho. Por isso, os reforços incorporados depois desse período não entram nos números apresentados na reunião. Entre os nomes citados nas informações sobre a sequência da temporada estão Cebolinha, Coutinho, Rodinei e Arthur Melo. O custo dessas operações deverá ser avaliado em uma análise financeira posterior, assim como o efeito das saídas de Adonis Frías, Zé Ivaldo, Zé Rafael, Robinho, Mayke e Lautaro Díaz.
Crise financeira já produziu efeitos práticos
A dificuldade para honrar compromissos financeiros também teve reflexos na rotina esportiva. O Santos enfrentou atrasos em salários e direitos de imagem e ficou impedido de registrar jogadores por causa de um transfer ban. A punição foi suspensa depois de um aporte de R$ 12 milhões da NR Sports destinado ao pagamento de uma dívida com o Monaco, da França.
Como parte do acordo, o Santos cedeu espaços de sua camisa para exploração comercial da empresa. Em uma partida contra o Atlético-MG, pela Copa Sul-Americana, a marca do Rei Pelé apareceu entre o escudo do clube e o logotipo da Umbro. A operação aproximou uma solução emergencial para o registro de atletas do debate sobre a contabilização dos compromissos com a NR Sports.
A reunião do Conselho Deliberativo deverá concentrar as discussões na diferença entre os valores do passivo, no crescimento dos gastos com o elenco e no uso de empréstimos e aportes para enfrentar obrigações imediatas. Para a gestão de Marcelo Teixeira, o desafio é apresentar medidas capazes de conter a expansão da dívida, regularizar pagamentos vencidos e preservar a estrutura esportiva sem ampliar a dependência de receitas futuras.