O Vasco avançou em duas frentes decisivas para reorganizar o futebol do clube. Em decisão publicada nesta quinta-feira, 10 de setembro de 2026, a 4ª Vara Empresarial da Comarca da Capital autorizou a contratação de um financiamento de até R$ 150 milhões e determinou a abertura do processo competitivo pela nova Sociedade Anônima do Futebol (SAF). As medidas fazem parte da recuperação judicial vascaína e foram assinadas pela juíza Simone Gastesi Chevrand.
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O crédito será fornecido pela Almirante Participações e Empreendimentos S.A., empresa ligada ao empresário Marcos Lamacchia, principal interessado na aquisição da SAF do Vasco. A autorização judicial cria uma fonte de liquidez para a continuidade das atividades do clube enquanto a nova estrutura societária é submetida ao procedimento de venda.
A decisão, porém, não representa a liberação imediata de todo o valor. O limite de R$ 150 milhões funciona como uma linha de crédito, e os desembolsos deverão ocorrer de forma fracionada. Cada utilização deverá estar vinculada às necessidades efetivas de caixa da Vasco SAF, com acompanhamento da evolução financeira e fiscalização da Administração Judicial.
O processo de venda envolverá a UPI Equity, estrutura que corresponde a 90% das ações da nova SAF vascaína. As propostas serão apresentadas em formato fechado durante audiência marcada para 25 de setembro de 2026, às 14h, no Rio de Janeiro.
A existência de uma disputa dependerá do surgimento de uma oferta superior à proposta apresentada por Lamacchia. Caso outro interessado ofereça um valor maior, o empresário terá o direito de cobrir o lance, condição conhecida no mercado como stalking horse. O mecanismo preserva a posição do proponente inicial, mas não impede a apresentação de uma alternativa concorrente.
A Justiça também dispensou a realização de uma avaliação econômica independente antes da audiência. O entendimento adotado foi o de que a própria competição entre eventuais interessados poderá funcionar como um teste de mercado para a participação colocada à venda. Depois da definição do lance final, os auxiliares do juízo deverão elaborar um estudo comparativo para verificar a adequação do preço e afastar eventual alegação de venda por valor vil.
Plano de Lamacchia prevê aporte no futebol
A proposta atribuída a Marcos Lamacchia prevê um aporte de R$ 500 milhões no departamento de futebol. O montante seria dividido em cinco parcelas anuais de R$ 100 milhões, com destinação exclusiva às atividades do futebol e impedimento de uso para quitar dívidas anteriores do clube.
O plano também inclui investimentos na estrutura esportiva. Está previsto um aporte de R$ 120 milhões no Centro de Treinamento ao longo de dez anos, além de R$ 30 milhões nas categorias de base durante dois anos. A proposta contempla ainda obrigações relacionadas aos credores da recuperação judicial, a débitos tributários e previdenciários e a dívidas classificadas como extraconcursais.
Considerando os compromissos financeiros e os investimentos projetados, a operação é estimada em aproximadamente R$ 2 bilhões. Esses valores integram a proposta que será submetida ao procedimento competitivo e, portanto, estão sujeitos às etapas judiciais previstas para a definição da nova SAF.
O financiamento DIP, sigla em inglês para debtor-in-possession, é utilizado por empresas que permanecem em operação durante uma recuperação judicial. No caso do Vasco, a modalidade foi autorizada para preservar a liquidez da estrutura esportiva e permitir que o clube mantenha suas atividades enquanto a reorganização societária avança.
Acordo com a 777 reduz obstáculo societário
A decisão também validou a resolução de conflitos entre o Vasco e a 777 Carioca LLC, antiga investidora da SAF. O grupo firmou um acordo com o clube e declarou que não se opõe ao plano de recuperação judicial nem à criação da nova SAF.
O entendimento elimina, no âmbito informado pela decisão, um obstáculo relacionado à estrutura anterior e permite que o Vasco avance com o modelo societário que será colocado em disputa na audiência de setembro. A transferência do controle do futebol, no entanto, ainda depende do cumprimento das etapas do processo e da definição da proposta vencedora.
Órgão analisa possível conflito de interesses
A aquisição também é acompanhada pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf). O órgão abriu apuração para avaliar se o parentesco entre Marcos Lamacchia e Leila Pereira, presidente do Palmeiras, pode caracterizar conflito de interesses.
Lamacchia é filho do empresário José Roberto Lamacchia e enteado de Leila Pereira. José Lamacchia aparece como avalista da operação relacionada à venda da SAF vascaína e é sócio vitalício e integrante do quadro de conselheiros do Palmeiras.
A análise considera as regras de fair play financeiro da Confederação Brasileira de Futebol, que impedem uma pessoa física ou jurídica de deter controle ou influência significativa sobre mais de um clube participante das mesmas competições organizadas pela entidade. Entre os critérios de influência estão a capacidade de dirigir políticas financeiras ou operacionais, exercer vetos relevantes, nomear administradores-chave ou deter, isoladamente ou em conjunto, mais de 10% dos direitos de voto em determinadas condições.
A legislação brasileira específica das SAFs não estabelece uma proibição expressa para vínculos familiares entre investidores ou dirigentes de clubes. A avaliação também envolve princípios mais amplos de governança, transparência, equidade e integridade das competições. Enquanto essa análise prossegue, a autorização do financiamento e a marcação da audiência colocam o Vasco diante de duas etapas práticas: obter recursos conforme a necessidade de caixa e testar, no procedimento judicial, a existência de interessados capazes de superar a proposta atualmente apresentada.