Kaio Jorge poderá defender o Cruzeiro no clássico decisivo contra o Atlético-MG. A 5ª Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) julgou o atacante nesta segunda-feira (31) e aplicou suspensão de uma partida, mas converteu a punição em advertência. Na prática, o jogador ficou livre para ser relacionado no duelo desta terça-feira (1º), às 21h, na Arena MRV, em Belo Horizonte.
O processo teve origem no lance ocorrido durante a partida de ida das quartas de final da Copa do Brasil, disputada no Mineirão na terça-feira (26). Kaio Jorge se envolveu em uma disputa com Ruan Tressoldi, do Atlético-MG. O zagueiro perdeu o equilíbrio, caiu e bateu a cabeça no gramado. A jogada provocou a substituição do defensor aos 18 minutos do primeiro tempo e motivou seu encaminhamento de ambulância a um hospital.
De acordo com as informações divulgadas pelo Atlético-MG, Ruan Tressoldi recebeu alta após os exames e não teve lesão constatada. O atleta também entrou no protocolo de concussão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). As fontes consultadas informaram que o zagueiro deveria ter condições de participar da partida de volta, mas a decisão sobre sua utilização caberia à comissão técnica e aos protocolos médicos.
Votação terminou com maioria
A decisão dos auditores não foi unânime. O relator Ramon Rocha Santos propôs a pena mínima de um jogo de suspensão, entendimento acompanhado por Renata Baldez Mendonça, Raoni Vita e Paulo Ronaldo Carvalho, presidente da comissão. Gustavo Lisboa apresentou a única divergência e defendeu três partidas de gancho, por considerar a jogada especialmente grave.
O resultado final foi a condenação por uma partida, imediatamente convertida em advertência. Essa conversão retirou a necessidade de cumprimento do gancho e preservou a condição legal de Kaio Jorge para o confronto eliminatório. A escalação, entretanto, não foi confirmada pelo tribunal: a decisão de iniciar ou não com o atacante continua sendo do técnico do Cruzeiro.
Na fundamentação, Ramon Rocha Santos classificou a ação como temerária e imprudente. O relator avaliou que houve emprego de força desnecessário e que o movimento corporal de Kaio Jorge desequilibrou o adversário. Também reconheceu que as imagens do lance eram fortes e que as consequências poderiam ter sido mais graves, mas ressaltou que a Justiça Desportiva deve examinar a conduta praticada, e não apenas o resultado provocado por ela.
O julgamento considerou o artigo 254 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), relacionado a jogada violenta e à atuação temerária ou imprudente na disputa da bola, mesmo sem intenção de causar dano ao adversário. A discussão se concentrou justamente na interpretação do movimento: se deveria ser tratado como uma falta de jogo ou como uma ação disciplinarmente mais grave.
Defesas adotaram argumentos opostos
O Cruzeiro foi representado pelo advogado Michel Assef Filho, que pediu a absolvição de Kaio Jorge. A defesa sustentou que a jogada poderia ser enquadrada como uma falta comum de partida, conhecida no futebol como “cama de gato”, e argumentou que o atacante não deveria ser punido pelas consequências da queda de Ruan Tressoldi.
Assef também afirmou que o árbitro marcou a falta e que o lance foi analisado durante a partida. Para a defesa, uma punição posterior criaria um precedente para que diversas disputas semelhantes fossem denunciadas ao tribunal. Como parte da estratégia, foram apresentados vídeos de outros lances classificados como “cama de gato” nos quais, segundo a argumentação do clube, não houve sanções disciplinares severas.
A defesa atleticana seguiu uma linha diferente. Rafael Lewandowski Libertuci, gerente jurídico desportivo do Atlético-MG, afirmou que o movimento foi deliberado e defendeu uma penalidade mais pesada. O advogado mencionou episódios anteriores envolvendo Kaio Jorge, incluindo um lance com Iván Román e um gesto interpretado como referência a “roubo” em outro clássico. Parte dos vídeos de temporadas anteriores foi retirada do julgamento por decisão do presidente da comissão.
Durante sua manifestação, Libertuci empregou termos duros para descrever a jogada e disse que Ruan Tressoldi poderia ter sofrido consequências fatais. A acusação também apontou uma suposta reincidência do atacante em denúncias no STJD. Essas alegações, porém, não prevaleceram na votação final, que estabeleceu a pena mínima e a converteu em advertência.
O Atlético-MG ainda acionou Haroldo Aleixo, médico cardiologista e especialista em medicina do esporte, como testemunha. A Procuradoria do STJD, representada por Caio Porto Ferreira, defendeu a punição com base em um objetivo pedagógico. Para o procurador, jogadas que expõem atletas a risco, especialmente em disputas que envolvem a cabeça, devem ser avaliadas mesmo quando não há uma lesão grave confirmada.
Ruan Tressoldi também pediu para participar formalmente do processo como terceira parte, mas a solicitação foi indeferida no início da sessão. O julgamento prosseguiu com a análise das imagens do clássico, dos argumentos das partes e dos vídeos apresentados pela defesa do Cruzeiro.
Vaga na semifinal está aberta
O efeito esportivo mais imediato da decisão é a possibilidade de Kaio Jorge participar de uma partida que vale a continuidade do Cruzeiro na Copa do Brasil. O primeiro encontro terminou empatado por 1 a 1, no Mineirão. Por isso, nenhum dos dois rivais possui vantagem no placar agregado antes da volta na Arena MRV.
O regulamento apresentado pelas fontes prevê classificação direta do vencedor do tempo regulamentar. Se Atlético-MG e Cruzeiro voltarem a empatar, a vaga será decidida na disputa de pênaltis. O ganhador do clássico enfrentará na semifinal o clube que avançar do confronto entre Internacional e Grêmio.
A classificação também tem impacto financeiro. O clube que alcançar as semifinais receberá R$ 4 milhões em premiação da Confederação Brasileira de Futebol. O valor aumenta a relevância de uma partida que já carrega a rivalidade estadual e coloca em jogo a presença entre os quatro melhores da competição.
Para o Cruzeiro, a liberação evita que uma decisão disciplinar altere diretamente as opções ofensivas para o mata-mata. Kaio Jorge poderá ser considerado pela comissão técnica, mas o julgamento não oferece qualquer indicação sobre sua condição física, sua posição na equipe ou seu aproveitamento desde o início. O tribunal apenas retirou o impedimento disciplinar.
O processo também produziu punições administrativas para os dois clubes. Cruzeiro e Atlético-MG receberam multas de R$ 2 mil por atraso de dois minutos no começo ou no reinício das partidas. O Atlético, na condição de mandante, foi punido adicionalmente em R$ 6 mil pelo uso de sinalizadores nas arquibancadas.
Assim, o clássico chega à data marcada com duas decisões distintas: Ruan Tressoldi foi liberado após os exames e passou pelo protocolo de concussão informado pelo Atlético-MG, enquanto Kaio Jorge obteve autorização jurídica para atuar depois do julgamento. A presença dos dois em campo ainda depende das escolhas das comissões técnicas e das avaliações médicas correspondentes.
O que já está definido é o cenário da eliminatória. A partida será disputada nesta terça-feira (1º), às 21h, na Arena MRV, e decidirá um dos semifinalistas da Copa do Brasil. O Cruzeiro entra sem a obrigação de reverter uma vantagem adversária, mas também sem margem para novo empate no tempo regulamentar caso queira evitar a decisão por pênaltis. Com a advertência aplicada pelo STJD, Kaio Jorge permanece entre as alternativas disponíveis para o confronto.