Gustavo Scarpa encontrou nos livros uma forma inesperada de ampliar a conexão com a torcida do Atlético-MG. As resenhas publicadas pelo meio-campista nas redes sociais deram origem à Galeitura, clube do livro criado por atleticanos, e fizeram uma obra clássica da literatura russa alcançar o primeiro lugar entre os livros mais vendidos da Amazon Brasil.
O alcance da iniciativa surpreendeu o próprio jogador. Em participação no Redação SporTV, Scarpa contou que não imaginava que uma indicação literária pudesse mobilizar tantos torcedores, sobretudo por se tratar de um título antigo e de leitura mais densa. “Eu não esperava uma repercussão tão grande. Ainda mais um livro tão antigo. Literatura russa. Não sei se é o que a galera curte mais. Mas eu falei pro pessoal da minha assessoria: nunca me senti tão famoso”, afirmou.
Livro de Tolstói virou símbolo do movimento
O principal episódio dessa repercussão envolveu A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói. Após ser recomendado por Scarpa, o livro passou a despertar interesse entre os torcedores e apareceu no topo da lista de mais vendidos da Amazon no país. A movimentação levou a literatura para um espaço pouco habitual no ambiente do futebol e ajudou a transformar uma atividade individual em uma experiência coletiva.
A Galeitura surgiu justamente a partir desse interesse. O nome combina a referência ao Galo com a proposta de reunir leitores atleticanos em torno das obras sugeridas pelo meia. O perfil da iniciativa nas redes sociais ultrapassou 70 mil seguidores, conforme informação divulgada sobre o movimento, sinalizando que a adesão foi além de comentários pontuais nas publicações do jogador.
A influência também chegou ao exterior. O jornal argentino Olé destacou o hábito de leitura de Scarpa e a repercussão de suas recomendações. O episódio ampliou a visibilidade de um conteúdo que não está diretamente ligado ao desempenho esportivo do atleta, mas que passou a fazer parte de sua imagem pública.
Scarpa mantém o hábito de comentar as obras que lê nas redes sociais e criou o Canal do Scarpinha, no YouTube, para produzir conteúdos sobre literatura. A proposta não é apresentar os livros como conhecimento reservado a especialistas, mas compartilhar impressões de maneira acessível e descontraída.
O jogador explicou que procura falar sobre as obras a partir de sua própria experiência, mesmo quando considera que sua interpretação é limitada. “Muitos livros são considerados tabus e tal. Acham que apenas acadêmicos vão conseguir ler. Eu, no meu jeito, na minha limitação, passo uma interpretação do pouco que eu entendo. A galera se sente representada”, disse.
Essa preocupação ajuda a explicar a adesão de torcedores que talvez não acompanhassem discussões literárias em outros espaços. Em vez de assumir o papel de especialista, o meio-campista compartilha a leitura como um hábito pessoal. Nas publicações, ele apresenta os livros, comenta passagens e tenta discorrer um pouco mais sobre o que compreendeu de cada obra.
O repertório escolhido por Scarpa inclui autores associados aos clássicos e a textos considerados exigentes. Ele citou leituras de Dostoiévski, Kafka e Victor Hugo, além de Tolstói. Também reconheceu que ainda encontra dificuldade com Shakespeare, por causa do vocabulário e da dinâmica dos textos, e com a poesia.
Relação com a literatura começou no Palmeiras
O interesse não fez parte da rotina do jogador desde a infância. Scarpa contou que recebeu uma biografia de Steve Jobs de uma tia em 2018, quando defendia o Palmeiras e conquistou o Campeonato Brasileiro. Até então, segundo o relato do atleta, a Bíblia era praticamente o único livro que lia com frequência.
No ano seguinte, a convivência com um profissional formado em Direito contribuiu para que a leitura ganhasse espaço. Os dois conversavam sobre diferentes assuntos e fizeram uma aposta relacionada ao desempenho do meia: ele receberia um livro por gol marcado e outro a cada duas assistências. O acordo, porém, durou pouco, porque a quantidade de presentes começou a pesar para quem havia proposto o desafio.
Entre os livros recebidos estava O Médico e o Monstro. A obra se tornou um ponto de virada no contato de Scarpa com a literatura e o levou a buscar outros clássicos. O jogador contou que seu terceiro ou quarto livro foi O Processo, de Franz Kafka, uma escolha que mostra como seu percurso começou por leituras consideradas densas.
A fase também coincidiu com uma temporada produtiva em campo. Em 2019, pelo Palmeiras, Scarpa marcou 13 gols e deu sete assistências. A lembrança ajuda a situar o momento em que a leitura passou a ocupar mais espaço em sua vida, sem deixar de lado a carreira profissional que já estava em evidência.
Hábito avançou para o vestiário
O movimento não ficou restrito às arquibancadas e às redes sociais. Scarpa afirmou que companheiros do Atlético-MG também começaram a ler ou passaram a trocar recomendações com ele. Victor Hugo mantém conversas literárias com o meia, enquanto Léo Duarte já compartilhou leituras. Igor Gomes também havia indicado um livro a Scarpa.
As trocas mostram que a iniciativa alcançou outra dimensão dentro do clube: os livros passaram a servir como assunto entre jogadores. Não há indicação de que todos tenham adotado o mesmo ritmo de leitura, mas o relato do meio-campista confirma que o tema passou a circular no vestiário do Atlético.
Para os atleticanos, a Galeitura representa uma maneira diferente de acompanhar um jogador. A torcida não se reúne apenas para discutir partidas, escalações ou resultados, mas também para comentar personagens, autores e interpretações. Para Scarpa, o sucesso de A Morte de Ivan Ilitch e o crescimento do clube do livro mostram que uma recomendação feita a partir de um hábito pessoal pode alcançar públicos muito maiores do que o esperado.