A Delegacia de Defraudações do Rio de Janeiro investiga uma possível fraude contra credores no processo de recuperação judicial do Vasco. O inquérito, aberto em maio, concentra-se no crédito reivindicado pelo ex-jogador Max, que defendeu o clube no início dos anos 2010, e na possível atuação de Alan Belaciano, presidente da Assembleia Geral vascaína.
O ponto central da apuração é a mudança no valor atribuído à dívida. O Vasco contestou judicialmente, em abril, a evolução do crédito, que teria saído de aproximadamente R$ 2,5 milhões e ultrapassado R$ 8 milhões. A polícia busca esclarecer a origem dos cálculos, a forma como o valor foi incluído no processo e se havia uma quantia já consolidada para ser submetida à recuperação judicial.
Max já prestou depoimento. Conforme o relato atribuído ao ex-atleta, seus advogados atuais, Sergio Aguiar e Moisés Gleicher, informaram que a ação apresentada em 2016 poderia representar cerca de R$ 8 milhões. Pelas regras do processo de recuperação judicial, entretanto, o valor que ele teria direito a receber ficaria próximo de R$ 5 milhões.
Relação entre Max e Alan Belaciano é investigada
Belaciano era advogado de Max quando o jogador entrou com a ação contra o Vasco, em 2016. A defesa foi transferida para outro representante em 2017, mas o ex-atleta afirmou à polícia que o dirigente participou de audiências realizadas em 2017 e 2019 a seu pedido, por causa da relação profissional anterior.
A investigação pretende verificar se Belaciano manteve alguma participação no caso depois de deixar de representar Max e se sua posterior função no clube criou um conflito de interesses. Quando o Vasco respondeu à Justiça sobre o aumento do crédito, ele já exercia a presidência da Assembleia Geral.
O dirigente foi intimado duas vezes e não compareceu à delegacia. Deverá ser chamado novamente. Moisés Gleicher também foi convocado, mas ainda não prestou depoimento. O presidente do Vasco, Pedrinho, será ouvido pelos investigadores, assim como outras pessoas relacionadas ao processo.
Belaciano nega ser investigado e afirma que não participou da elaboração, da negociação ou da aceitação de acordos com credores. Em manifestação ao ge, declarou que, ao assumir uma função no Vasco, deixou de advogar para Max e para qualquer outra parte em processos contra o clube.
Ele disse ainda que, a pedido do então CEO Carlos Amodeo, atuou apenas de maneira pontual para aproximar o Vasco dos advogados dos credores. Segundo sua versão, os escritórios especializados em recuperação judicial definiram os valores, a forma de pagamento e a estrutura das negociações.
Depoimentos divergem sobre reconhecimento da dívida
A polícia ouviu Carlos Amodeo, ex-CEO do Vasco; Bianca Reis, ex-diretora jurídica; Adriana Zamponi, representante da Wald Administração de Falências, responsável pela administração judicial; e Gabriel Souza, funcionário da Alvarez & Marsal e atual diretor financeiro do clube.
Amodeo e Bianca relataram ter sido alertados sobre uma possível irregularidade no fechamento do balanço de 2025. Os dois também afirmaram que o crédito de aproximadamente R$ 8 milhões foi inserido nos autos pelo próprio Max. Na mesma linha, disseram que Belaciano se colocou à disposição para fazer a interlocução entre o Vasco e advogados trabalhistas durante a fase de mediação, em uma atuação descrita como informal.
A versão apresentada por Adriana Zamponi é diferente. De acordo com o depoimento atribuído à representante da administradora judicial, o Vasco e a SAF reconheciam anteriormente valores próximos de R$ 7,9 milhões. Ainda havia divergências sobre encargos previdenciários e imposto de renda, mas novos cálculos levaram o montante a aproximadamente R$ 8 milhões.
Zamponi teria demonstrado surpresa com a mudança posterior de posicionamento do clube e da SAF em relação a um crédito que, segundo seu relato, havia sido reconhecido anteriormente. A diferença entre os depoimentos passou a integrar a análise sobre a formação do valor e sobre as responsabilidades de cada envolvido no processo.
Belaciano sustenta que o próprio Vasco havia reconhecido a quantia. Ele citou uma petição assinada em janeiro por Bianca Reis, com concordância a um valor próximo de R$ 8 milhões, posteriormente incluído no plano de recuperação judicial. Na avaliação do dirigente, a contestação ocorreu depois de uma ruptura política interna e passou a ser usada para atingir o presidente Pedrinho.
Conselho Fiscal já havia pedido apuração
O episódio também foi registrado em manifestação do Conselho Fiscal da SAF sobre o balanço financeiro de 2025. Em parecer relacionado ao caso, o órgão apontou a participação de Belaciano como possível interlocutor do Vasco na classe trabalhista de credores. O documento considerou necessário apurar eventual conflito de interesses por causa de sua atuação anterior como advogado em ações trabalhistas contra o clube.
O parecer mencionou sete casos que o Vasco e a SAF tentam contestar dentro da recuperação judicial. As cobranças somam aproximadamente R$ 10,8 milhões, e o processo envolvendo Max é um dos episódios analisados. O questionamento do Conselho Fiscal ampliou a apuração para além de uma única dívida e colocou o tema dentro das responsabilidades de governança do clube.
O inquérito ainda depende de novos depoimentos e do confronto entre as versões apresentadas por ex-dirigentes, administradores do processo e envolvidos na ação de Max. A polícia prevê concluir a investigação cerca de um mês depois de ouvir as pessoas consideradas necessárias, entre elas Pedrinho, Belaciano e Moisés Gleicher.