A derrota de virada para o Cruzeiro, no sábado (22), reforçou uma preocupação que já vinha aparecendo nos números do Flamengo: a equipe tem perdido consistência defensiva depois do intervalo. Sob o comando de Leonardo Jardim, o time conseguiu controlar o adversário na primeira etapa, mas sofreu uma mudança importante no andamento da partida no segundo tempo.
O comportamento observado no Mineirão não foi tratado como um episódio isolado. Desde a retomada do futebol brasileiro após o fim da Copa do Mundo, o Flamengo disputou oito partidas e sofreu sete gols. A média é de 0,9 gol por jogo. Nesse recorte, a equipe terminou apenas dois compromissos sem ser vazada e sofreu gols em seis partidas, o equivalente a 75% dos jogos.
Segundo tempo muda o jogo
Contra o Cruzeiro, a diferença entre os dois tempos apareceu de forma clara no volume ofensivo dos mineiros. O adversário finalizou sete vezes antes do intervalo, mas chegou a 17 tentativas na etapa final. Foram dez chutes a mais em apenas 45 minutos, enquanto o Flamengo encontrou dificuldades para recuperar o controle construído no início do confronto.
A queda não se resume à quantidade de gols sofridos. O Flamengo tem permitido mais ações ofensivas aos adversários ao longo das partidas. Nos oito jogos analisados, a equipe concedeu, em média, 13,1 finalizações por partida, com 3,1 delas na direção do gol. O levantamento aponta ainda um gol sofrido a cada 15 finalizações adversárias.
A distribuição temporal dos gols amplia o sinal de alerta. Dos sete gols sofridos no período, somente um aconteceu no primeiro tempo, entre os 16 e os 30 minutos. Os outros seis foram marcados depois do intervalo. O trecho mais delicado está logo no começo da etapa final: três gols saíram entre os minutos 46 e 60.
Um dos gols restantes aconteceu entre os 61 e os 75 minutos. Os outros dois foram marcados nos minutos finais das partidas. A concentração após o descanso indica uma dificuldade do time em manter, durante os 90 minutos, o nível de intensidade e organização apresentado em determinados momentos dos jogos.
Jardim divide responsabilidade defensiva
Depois da derrota para o Cruzeiro, Leonardo Jardim afirmou que o Flamengo precisa melhorar defensivamente, mas rejeitou a ideia de concentrar a responsabilidade apenas no goleiro ou nos jogadores da última linha. Para o treinador, o comportamento defensivo começa antes da finalização e depende da participação de toda a equipe.
Jardim citou situações em que o adversário conseguiu chegar ao chute após vencer duelos individuais ou encontrar espaço diante de uma pressão insuficiente. A avaliação do técnico é que o time poderia ter pressionado melhor em alguns lances e evitado dribles que antecederam as finalizações.
O treinador também destacou que o Flamengo tem conseguido limitar o número total de chutes dos adversários em determinados jogos. Na visão apresentada por Jardim, conceder poucas finalizações continua sendo um aspecto positivo do trabalho, mas a equipe precisa ser mais eficiente para impedir que essas oportunidades terminem em gol.
A análise do comandante ajuda a diferenciar dois problemas. Um deles está relacionado ao volume de ações permitidas ao adversário, especialmente no segundo tempo. O outro envolve a qualidade das conclusões sofridas e os erros cometidos antes que o chute aconteça. Os dados disponíveis apontam para a presença dos dois fatores no recorte recente.
Gols têm origens variadas
A origem das bolas na rede também não aponta para uma única falha. Dos sete gols sofridos pelo Flamengo nos oito jogos desde a retomada do futebol brasileiro, quatro foram marcados de dentro da área. Dois desses gols aconteceram em finalizações de cabeça. Os outros três saíram em chutes de fora da área.
O tipo de lance reforça a avaliação de que a vulnerabilidade não está limitada a uma jogada específica. A equipe sofreu gols em situações próximas ao gol, em bolas aéreas e também em conclusões de média ou longa distância. Isso torna o alerta mais amplo, porque envolve a proteção da área e o controle sobre os jogadores que conseguem finalizar de fora.
Seis dos sete gols foram marcados com a bola rolando. Apenas um teve origem em uma bola parada. O dado reduz o peso das jogadas de escanteio, faltas ou outras situações de bola parada como explicação principal para o período analisado. O problema aparece, principalmente, no funcionamento da equipe durante a partida.
O recorte recente inclui dois confrontos contra o Cruzeiro, um pela Libertadores e outro pelo Campeonato Brasileiro. Nos dois jogos, segundo a análise apresentada, o Flamengo mostrou intensidade, criatividade e controle no primeiro tempo. Depois do intervalo, porém, apresentou queda de rendimento e permitiu que o adversário ganhasse espaço.
Na partida mais recente, a virada mineira transformou em números uma impressão que já havia sido observada nos compromissos anteriores. O Cruzeiro passou a finalizar com maior frequência, enquanto o Flamengo deixou de exercer o mesmo domínio sobre o jogo. A mudança não criou o problema defensivo, mas tornou mais evidente uma tendência presente nas oito partidas do levantamento.
O início da segunda etapa aparece como a principal faixa de atenção para a comissão técnica. Três dos sete gols sofridos entre os minutos 46 e 60 mostram que o time tem enfrentado dificuldades justamente no período imediatamente posterior ao intervalo. A queda pode ser percebida tanto na quantidade de finalizações concedidas quanto na perda de controle territorial e nos duelos que antecedem os chutes.
Os números, isoladamente, não permitem apontar uma causa única para a sequência. Eles mostram, porém, uma combinação de fatores: frequência maior de gols sofridos, baixa quantidade de partidas sem ser vazado, concentração das bolas na rede no segundo tempo e concessão de oportunidades em diferentes tipos de jogada.
O desafio do Flamengo é voltar a sustentar sua organização ao longo de toda a partida. Para isso, a equipe precisa manter a pressão, reduzir os espaços nos duelos individuais e preservar o controle depois do intervalo. A orientação de Jardim envolve o sistema inteiro, não apenas a defesa posicionada diante do gol.
A derrota para o Cruzeiro, portanto, funciona como um retrato de uma dificuldade que já vinha sendo registrada. O Flamengo fez um primeiro tempo de controle, mas permitiu uma reação forte na etapa final. Com sete gols sofridos em oito jogos e seis deles depois do intervalo, a consistência defensiva passou a ser um dos principais pontos de atenção do time.