O Corinthians terminou os seis primeiros meses de 2026 com um déficit de R$ 246,039 milhões. O resultado consta no balanço financeiro apresentado pelo clube e representa uma deterioração expressiva em relação ao planejamento aprovado para o período, que previa saldo negativo de aproximadamente R$ 138 milhões. A diferença entre a projeção e o resultado efetivo passou de R$ 100 milhões, com o rombo ficando cerca de 78% acima do esperado.
Os dados foram apresentados após uma reunião da diretoria com integrantes do Conselho de Orientação. O endividamento total do Corinthians permanece próximo de R$ 2,8 bilhões. Sob o comando de Osmar Stabile, a administração precisa encontrar formas de reforçar o caixa e, ao mesmo tempo, conter despesas que pressionam o resultado do futebol e da estrutura do clube.
O déficit acumulado até abril era de R$ 168,048 milhões. Assim, o balanço do semestre acrescentou aproximadamente R$ 78 milhões ao resultado negativo registrado nos quatro primeiros meses do ano. A evolução do número tornou mais urgente a discussão sobre o planejamento financeiro para os meses seguintes.
Vendas de atletas não entraram no caixa
A ausência de negociações de jogadores no primeiro semestre foi um dos fatores centrais para o desvio em relação ao orçamento. O planejamento de 2026 considerava uma receita líquida total de 25 milhões de euros com transferências, valor estimado em cerca de R$ 144 milhões. Desse montante, 12,5 milhões de euros, ou aproximadamente R$ 75 milhões, deveriam ser obtidos na primeira janela do ano.
Essa entrada não se confirmou no período. O balancete indica que a diretoria optou por não realizar as operações previstas na primeira janela, deixando de contar com uma fonte que havia sido incluída na montagem do orçamento. Para a janela do meio do ano, o clube projetou outros R$ 149 milhões líquidos em receitas com atletas. O período de negociações se encerra nesta terça-feira, dia 1º, e essa previsão ainda aparece como uma alternativa para melhorar as contas.
Em junho, a diretoria também discutiu a possibilidade de revisar o orçamento. A proposta apresentada era atualizar o planejamento a cada semestre, sempre mantendo uma projeção financeira para os 12 meses seguintes. A medida permitiria ajustar as expectativas de arrecadação e despesa à realidade do fluxo de caixa, especialmente depois da frustração com as vendas previstas para o início da temporada.
Receitas operacionais ficaram próximas dos gastos
O Corinthians registrou R$ 415,3 milhões em receita operacional bruta entre janeiro e junho. Após deduções, a receita operacional líquida ficou em R$ 394,2 milhões. Os direitos de transmissão responderam por R$ 124,9 milhões, enquanto os contratos de patrocínio geraram R$ 141,8 milhões.
As receitas ligadas à marca e a outras fontes somaram R$ 78,5 milhões. Já a cessão e o empréstimo de direitos econômicos de atletas representaram R$ 10,4 milhões. Mesmo com entradas relevantes em contratos comerciais e de mídia, a arrecadação não foi suficiente para absorver o conjunto de despesas, principalmente porque a previsão de transferências não se materializou.
Os custos e as despesas operacionais alcançaram R$ 389,3 milhões. O gasto com pessoal foi de R$ 283,9 milhões, montante que inclui R$ 32,525 milhões em premiações pela conquista da Copa do Brasil de 2025. O valor foi processado na folha de janeiro de 2026 e teve impacto direto nas despesas do semestre.
Outro desembolso destacado no balanço foi de R$ 6,076 milhões em impostos associados à operação de câmbio usada para quitar uma dívida com o Santos Laguna. O clube também contabilizou R$ 16,307 milhões em contingências e revisão contábil, item que ampliou o efeito negativo sobre o resultado apresentado.
Resultado operacional e despesas financeiras
Os números detalhados mostram que o resultado operacional ficou negativo em R$ 90,215 milhões. Com a inclusão das receitas e despesas financeiras, o prejuízo chegou a R$ 155,825 milhões. O déficit final de R$ 246,039 milhões reúne esse desempenho e os demais efeitos registrados na contabilidade do semestre.
O balanço, contudo, aponta EBITDA recorrente positivo de R$ 4,866 milhões. Essa métrica observa a operação antes de juros, impostos, depreciação e amortização, excluindo efeitos considerados não recorrentes. O indicador não elimina o déficit, mas ajuda a separar o desempenho recorrente da atividade dos impactos financeiros, contábeis e extraordinários que levaram ao resultado final.
Para cumprir compromissos, o Corinthians também recorreu à antecipação de receitas futuras de patrocínio. Em fevereiro, recebeu R$ 46.978.743,15 da Esportes da Sorte. Depois, obteve mais R$ 23,75 milhões relacionados à Nike, em operação realizada por meio do Banco Daycoval. Essas transações reforçam o esforço para gerar liquidez imediata, mas reduzem parte dos valores que seriam recebidos pelo clube adiante.
Dívidas afetam também o registro de jogadores
A situação financeira se soma a um histórico recente de resultados negativos. As contas de 2025 foram aprovadas pelo Conselho com déficit líquido de R$ 143,4 milhões. Naquele exercício, a receita operacional líquida foi de R$ 810 milhões, contra R$ 885 milhões em despesas operacionais. A dívida bruta registrada em dezembro era de R$ 2,7 bilhões.
No futebol, o Corinthians convive com três transfer bans ativos na Fifa. Uma quarta punição, relacionada a uma multa disciplinar de US$ 225 mil, foi quitada recentemente. A restrição mais recente está ligada à contratação do volante Charles, realizada em 2024, na gestão de Augusto Melo.
O clube acertou a compra do jogador junto ao Midtjylland, da Dinamarca, por 1,6 milhão de euros, divididos em três parcelas. A última, de 800 mil euros, venceu em março de 2025 e permaneceu em aberto. O clube dinamarquês acionou a Fifa, que notificou o Corinthians em 20 de julho. Também há uma pendência de R$ 8 milhões com a CBF, referente à quinta parcela de um acordo firmado na Câmara Nacional de Resolução de Disputas.
O balanço do primeiro semestre coloca a recuperação financeira no centro das decisões do Corinthians. A diretoria precisa transformar as receitas previstas com o futebol em entradas efetivas, controlar a folha e administrar obrigações já assumidas. O desempenho dos próximos meses será determinante para evitar que o déficit avance e para reduzir as restrições que atingem a montagem do elenco.