Abel critica regra do Brasileirão e questiona avanço de estrangeiros
Após vitória do Palmeiras sobre a LDU, técnico afirma que limite de jogos restringe o mercado nacional e dificulta a contratação de jovens brasileiros.
Abel Ferreira aproveitou a entrevista coletiva após a vitória do Palmeiras por 1 a 0 sobre a LDU, pela Copa Libertadores, para colocar em debate uma regra do Campeonato Brasileiro. O treinador criticou a restrição que impede um jogador de trocar de clube dentro da competição depois de atingir o limite de partidas disputadas por sua equipe.
A norma permite a mudança até que o atleta complete 12 jogos no Brasileirão. Na temporada passada, o limite era de seis partidas. Na avaliação de Abel, a alteração não resolveu o problema para os clubes que pretendem contratar jogadores em destaque no mercado nacional, porque muitos atletas passam a ficar indisponíveis justamente quando ganham espaço e sequência.
A manifestação ocorreu após uma pergunta sobre a necessidade de reposição no Palmeiras depois da venda do atacante Allan ao Manchester City. Abel afirmou que seria “impossível” encontrar dentro do próprio clube uma alternativa igual ao jogador e indicou que a equipe precisará analisar o mercado para recompor o elenco.
O técnico português disse que gostaria de buscar reforços em outras equipes do país, principalmente jovens que vêm apresentando bom desempenho. O problema, segundo ele, é que parte desses jogadores já ultrapassou a marca que permite a transferência para outro time do Brasileirão na mesma edição do campeonato.
Abel resumiu a dificuldade ao questionar quais atletas estariam disponíveis para contratação. Em sua avaliação, os clubes acabam limitados a jogadores que tiveram pouca participação ou que ocupam a reserva, enquanto os nomes que efetivamente se destacam deixam de ser opções para o restante da competição.
“Queremos contribuir para o futebol brasileiro. Tem jovens aqui diferenciados, mas fizeram mais de 10 jogos e não posso ir buscar. Querem que vá buscar quem? Os jogadores que não jogam? Reservas? Então temos que buscar fora. Vocês acham justo?”, declarou o treinador.
A referência a “mais de 10 jogos” feita por Abel se relaciona ao limite regulamentar de 12 partidas apresentado na discussão. O ponto central da crítica é que a participação regular de um atleta pode fechar a possibilidade de transferência antes que outro clube consiga aproveitar seu momento esportivo.
Na prática, a restrição interfere no planejamento de equipes que precisam corrigir o elenco durante a temporada. Um clube pode identificar uma necessidade, encontrar um jogador brasileiro adaptado à competição e, ainda assim, não conseguir utilizá-lo no Brasileirão por causa do número de partidas já disputadas.
Abel associa mercado fechado a mais estrangeiros
O treinador relacionou essa dificuldade ao aumento do espaço destinado a jogadores de outras nacionalidades. Segundo o relato feito por Abel, quando chegou ao Brasil os clubes podiam escalar até cinco estrangeiros. Depois, o limite passou para sete e chegou a nove. A regra atual permite a presença de até nove atletas estrangeiros em campo, enquanto o teto era de cinco até 2023, conforme as informações apresentadas na apuração.
Abel citou o atacante Merentiel para ilustrar como a mudança no limite pode afetar decisões de elenco. De acordo com o treinador, o Palmeiras liberou o jogador quando a quantidade permitida era de sete estrangeiros e, três dias depois, o número autorizado passou para nove. A lembrança foi usada para questionar quem assume a responsabilidade pelas alterações e pelos efeitos produzidos no planejamento dos clubes.
Na leitura do técnico, o aumento do limite para estrangeiros ocorre ao mesmo tempo em que a regra de transferências dificulta a circulação de brasileiros entre equipes do país. Com menos opções no mercado doméstico, os clubes podem direcionar a busca para atletas estrangeiros ou para brasileiros que estejam atuando fora do Brasil.
Discussão envolve formação e seleção brasileira
Abel afirmou que sua crítica não tinha como objetivo atacar o futebol brasileiro. O treinador disse que pretende valorizar os jogadores desenvolvidos no país e argumentou que a regulamentação também deveria permitir que os clubes aproveitassem jovens que demonstram capacidade durante o campeonato.
A declaração ocorreu em meio a uma discussão mais ampla sobre a quantidade de estrangeiros no futebol nacional. Abel mencionou o ex-jogador Silas, que havia relacionado o número de atletas estrangeiros à dificuldade de surgimento de novos talentos brasileiros. A fala do ídolo do Grêmio foi dada à ESPN da Argentina e serviu de ponto de partida para o treinador ampliar o debate na coletiva.
O questionamento não ficou restrito à montagem do elenco palmeirense. Abel afirmou que as regras influenciam diretamente as escolhas dos clubes e podem reduzir a concorrência por jogadores brasileiros que se destacam no próprio Brasileirão. Ao mesmo tempo, defendeu que a equipe paulista procura contribuir para a formação e a valorização de atletas do país.
“Gostaria muito de contratar jogadores, não posso. Gostaria de ter brasileiros, não posso”, disse o treinador ao reforçar sua insatisfação. Abel também reclamou da forma como suas declarações costumam ser interpretadas e afirmou que suas observações pretendem provocar reflexão sobre o funcionamento do futebol nacional.
A discussão, portanto, combina dois temas regulatórios que passaram a influenciar o mercado brasileiro: a quantidade de partidas que permite ou impede uma troca de clube durante o campeonato e o número de estrangeiros que cada equipe pode escalar. Para Abel, a combinação das regras diminui sua margem de escolha e torna mais difícil contratar jogadores brasileiros em atividade no país.