Relatório do Vasco vaza detalhes de empréstimos e caixa curto antes da SAF
Documento da Recuperação Judicial mostra a urgência de caixa e revela como o Gigante da Colina tenta equilibrar as contas para manter a operação da SAF.
O Vasco encerrou agosto com apenas R$ 5,6 milhões em caixa, segundo dados apresentados no acompanhamento da Recuperação Judicial. O valor aparece em um cenário de forte dependência de receitas extraordinárias, empréstimos elevados e compromissos financeiros que seguem em processo de reorganização.
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O levantamento aponta R$ 287,9 milhões em empréstimos, dos quais R$ 282,4 milhões correspondem ao principal e R$ 5,5 milhões a juros e atualizações. A dívida tributária consolidada das empresas envolvidas na recuperação é estimada em aproximadamente R$ 271 milhões. Quando são considerados juros, multas e correções, o montante informado chega a R$ 334 milhões.
A combinação entre caixa reduzido e obrigações expressivas dimensiona a pressão sobre a operação da SAF. Mesmo com entradas relevantes ao longo do ano, o saldo disponível no fim de agosto permaneceu limitado diante do volume de pagamentos e das necessidades de funcionamento do clube.
Empréstimos têm Crefisa e Almirante entre os credores
Do total atualizado de empréstimos, R$ 84 milhões estão vinculados à Crefisa. O contrato prevê remuneração pelo CDI acrescido de 7% ao ano e amortizações trimestrais até setembro de 2028.
Outros R$ 203,9 milhões estão relacionados a contratos com a Almirante. Desse valor, R$ 156,5 milhões são corrigidos pelo CDI e têm vencimento previsto para dezembro de 2027. Os R$ 47,4 milhões restantes seguem atualização pelo INPC, com vencimentos indicados para julho e agosto de 2027.
Também foram registrados dois novos empréstimos com a Almirante Participações nos meses de julho e agosto, nos valores de R$ 40 milhões e R$ 5,6 milhões. O pagamento das operações está previsto em parcela única em 2027. No contrato de R$ 40 milhões, parte dos recebíveis da Liga Forte União, vinculados ao critério de apelo comercial, foi cedida fiduciariamente.
Na prática, a estrutura mostra que parte dos recursos obtidos pelo clube está associada a obrigações futuras e a recebíveis específicos. Os vencimentos concentrados a partir de 2027 não eliminam a necessidade de controle do caixa atual, especialmente porque o Vasco ainda precisa cumprir compromissos correntes e os previstos no processo de recuperação.
Venda de atletas foi principal fonte de entrada
Entre janeiro e agosto, o Vasco registrou R$ 201,4 milhões em recebimentos relacionados a direitos econômicos de jogadores. Rayan respondeu por R$ 171,9 milhões, parcela que representa a maior parte dessa receita no período.
O levantamento também cita valores associados a Leandrinho, com R$ 9,3 milhões; João Victor, R$ 5,6 milhões; Luiz Gustavo, R$ 5,3 milhões; Loide, R$ 2,1 milhões; e Galarza, R$ 2 milhões. O restante veio de outros atletas.
Além das negociações envolvendo jogadores, o clube recebeu R$ 25 milhões em junho, em parcela única prevista no contrato de patrocínio master com a SportingBet. As entradas, contudo, não resultaram em um caixa elevado ao fim do período analisado, o que reforça o caráter não recorrente de parte importante das receitas apresentadas.
Os dados de pagamentos ajudam a explicar essa diferença. Aproximadamente R$ 46,6 milhões em compromissos foram transferidos de agosto para setembro. A soma inclui R$ 32,6 milhões em transferências de jogadores, R$ 5,5 milhões em comissões, R$ 4,5 milhões em luvas, R$ 3,4 milhões em impostos e R$ 630 mil em taxas de emissão financeira.
Negociação com a Fazenda reduz parcelas temporariamente
Nas tratativas com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, foi acordada uma redução temporária das prestações dos parcelamentos para R$ 580 mil mensais. A medida vale enquanto ocorre a consolidação de uma nova transação tributária.
O Vasco afirma que está cumprindo os prazos previstos no Plano de Recuperação Judicial e quitando os débitos posteriores ao pedido de recuperação, classificados como créditos extraconcursais. Esses pagamentos não integram as dívidas sujeitas ao plano e permanecem entre as obrigações operacionais do clube.
Na Câmara Nacional de Resolução de Disputas, a previsão informada é destinar R$ 15 milhões por ano ao pagamento de três planos. Os créditos serão atualizados pelo IPCA e, conforme os dados apresentados, não terão deságio.
Há ainda uma diferença nos números classificados como desembolsos de reestruturação. O fluxo de caixa registra R$ 56,8 milhões entre janeiro e agosto, enquanto os valores detalhados individualmente somam R$ 59,1 milhões. O material disponível não esclarece a origem da divergência.
Programa de sócios também recuou
O relatório mostra redução no número de clientes ativos do programa de sócio-torcedor. A SAF começou janeiro com 46.347 clientes e terminou agosto com 35.790, queda de aproximadamente 10,5 mil no período. Dos cadastrados ao fim de agosto, 35.214 estavam adimplentes.
Esse movimento reduz uma fonte recorrente de receita e se soma à necessidade de o clube administrar entradas concentradas em vendas de atletas, patrocínio e operações de crédito. Os números não permitem concluir, isoladamente, quais foram as causas da retração no programa, mas mostram a diminuição da base ativa durante o período analisado.
O quadro é apresentado enquanto avança a discussão sobre a estrutura societária da SAF. Em acordo celebrado em setembro, a 777 declarou não se opor à constituição da Nova SAF, à criação da UPI Equity e à alienação judicial de 90% das ações.
Com isso, o desafio financeiro do Vasco envolve duas frentes diretamente relacionadas: manter o funcionamento da operação e cumprir as obrigações previstas na Recuperação Judicial enquanto se discute uma nova configuração societária. A capacidade de gerar receitas recorrentes, controlar pagamentos e honrar os vencimentos será determinante para a continuidade do processo de reorganização.