O grupo de oposição Ocupa Palestra pediu que José Roberto Lamacchia deixe o Conselho Deliberativo do Palmeiras caso seja concluída a aquisição de 90% da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Vasco pela Almirante Participações. A empresa, ligada ao empresário Marcos Faria Lamacchia, filho de José Roberto e enteado da presidente palmeirense Leila Pereira, venceu o processo competitivo realizado na Justiça nesta sexta-feira (25).
A manifestação não determina um afastamento imediato. O pedido foi apresentado como uma solicitação de desligamento voluntário condicionada à conclusão da operação no clube carioca. Até o momento, Lamacchia continua integrante do Conselho Deliberativo, e não há decisão pública do Palmeiras determinando sua saída.
O grupo fundamenta a cobrança no artigo 33, inciso XIII, do Estatuto Social do Palmeiras. Segundo a interpretação do Ocupa Palestra, o dispositivo torna incompatível o exercício de mandato no Conselho com a condição de avalista ou financiador de uma equipe rival. A oposição entende que a eventual participação na operação do Vasco poderia criar um conflito entre a atuação institucional no clube paulista e os negócios privados relacionados ao futebol vascaíno.
O que a oposição pediu ao Palmeiras
Além do desligamento de Lamacchia, o comunicado solicita a interrupção de possíveis benefícios diretos ou indiretos a clubes adversários. A cobrança inclui facilidades, cessão de insumos ou utilização de estruturas privadas ligadas ao grupo empresarial da presidente do Palmeiras.
O texto cita, como exemplo, um eventual uso de aeronave particular por um clube rival. A situação foi apresentada como uma hipótese que, na avaliação do grupo, poderia representar benefício direto ao adversário. Não há, no material disponível, confirmação de que esse tipo de utilização tenha ocorrido.
O Ocupa Palestra também pediu que os órgãos de fiscalização do Palmeiras adotem medidas para reforçar a proteção de dados operacionais e do conhecimento acumulado pela instituição. A solicitação envolve especialmente o Conselho Deliberativo e o Conselho de Orientação e Fiscalização, que, segundo a oposição, deveriam estabelecer barreiras para separar informações internas do clube dos negócios ligados à família da presidente.
A preocupação política decorre da sobreposição de vínculos familiares e empresariais. José Roberto Lamacchia é marido de Leila Pereira e pai de Marcos Lamacchia, responsável pela empresa que avançou no processo de aquisição da SAF vascaína. O tema, portanto, envolve não apenas a posição de um conselheiro, mas também a relação entre os negócios privados da família e a administração de um dos principais clubes do futebol brasileiro.
Relação com a empresa que venceu o processo
O UOL informou que Leila Pereira e José Roberto Lamacchia foram sócios fundadores da empresa que, em março de 2024, ainda utilizava o nome Top Gol Participações e posteriormente passou a ser identificada como Almirante Participações. A informação integra o contexto empresarial citado na cobrança da oposição, embora a operação atual esteja associada à empresa de Marcos Lamacchia.
Em sua manifestação, o Ocupa Palestra afirmou que negócios particulares de dirigentes precisam ser separados dos cargos exercidos no Palmeiras. O grupo também declarou que empresas ligadas à presidente não deveriam financiar ou favorecer rivais do clube e sustentou que já havia levado questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse aos órgãos internos da instituição.
A referência ao artigo estatutário, porém, aparece como interpretação do grupo oposicionista, e não como uma decisão formal do Palmeiras sobre a situação de José Roberto Lamacchia. Também não foi informado, no material disponível, se o Conselho Deliberativo ou o Conselho de Orientação e Fiscalização abriu procedimento específico para analisar o pedido.
Compra da SAF do Vasco ainda não foi concluída
A vitória da Almirante Participações no processo competitivo e a homologação judicial do resultado representam um avanço, mas não significam que Marcos Lamacchia já tenha assumido oficialmente o controle do futebol do Vasco. A operação ainda depende de etapas internas no clube carioca, incluindo a análise do Conselho Deliberativo e a votação da Assembleia Geral.
A empresa foi a única interessada habilitada no processo, de acordo com as informações disponíveis. Mesmo assim, a transferência da participação majoritária precisa cumprir os procedimentos previstos para que o novo controlador seja efetivamente reconhecido.
O negócio também está sob análise da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol. O órgão abriu procedimento para avaliar uma possível situação de conflito de propriedade e adotou medidas cautelares que restringem relações comerciais entre Vasco, Palmeiras e empresas ligadas ao grupo de Leila Pereira.
A existência da apuração e das cautelares não equivale ao reconhecimento de uma irregularidade. O mérito do caso ainda depende de análise. Da mesma forma, a homologação do resultado judicial não encerra a discussão sobre a compatibilidade entre os vínculos empresariais envolvidos e as regras aplicáveis ao futebol.
Para o Palmeiras, o efeito imediato é político e institucional. A oposição passou a exigir uma definição sobre a permanência de José Roberto Lamacchia no Conselho e medidas de proteção para informações e estruturas do clube. A questão, contudo, permanece condicionada à conclusão da venda da SAF, às decisões dos órgãos vascaínos e à eventual avaliação das instâncias competentes do Palmeiras.