Montenegro defende trabalhadores de clubes menores e pede cautela nas mudanças da publicidade das apostas.Foto: Reprodução da Internet
O presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro, divulgou uma nota nesta quarta-feira (4) para esclarecer a declaração que fez durante uma audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF). O encontro ocorreu na terça-feira (3) e discutiu os impactos da Medida Provisória 1.394/2026, relacionada às regras para publicidade e patrocínios de empresas de apostas esportivas.
A fala do dirigente repercutiu depois que um trecho foi compartilhado nas redes sociais. Ao defender a suspensão da medida, Montenegro comparou os problemas de famílias endividadas pelas apostas ao risco de desemprego na cadeia do futebol. A formulação foi interpretada por críticos como uma tentativa de relativizar os danos sociais provocados pelo setor.
Na explicação posterior, o presidente tricolor afirmou que não pretendia diminuir a gravidade do endividamento familiar. Segundo ele, o foco estava nos trabalhadores de clubes com menor capacidade de arrecadação, que poderiam sofrer com uma queda repentina nas receitas comerciais.
Presidente diz que fala foi direcionada a clubes menores
Montenegro afirmou que o Fluminense não participou sozinho da audiência no STF. De acordo com a nota, o clube esteve acompanhado por representantes de outras 14 equipes da Série B, também preocupadas com as consequências financeiras de uma mudança imediata nas regras de publicidade e patrocínio.
“Referia-me aos funcionários mais humildes, de clubes mais modestos em termos de arrecadação”, declarou o dirigente ao explicar o sentido de sua manifestação. A justificativa deslocou o foco do debate para profissionais que não costumam ter a mesma visibilidade de atletas e executivos de grandes agremiações.
Durante a audiência, Montenegro reconheceu que o endividamento das famílias é um problema real e que o Fluminense não nega os efeitos provocados pelas apostas. Em seguida, argumentou que o fim ou a redução imediata das receitas de contratos também poderia atingir famílias que dependem do futebol para trabalhar.
O presidente questionou o que os clubes fariam caso essa fonte de receita fosse interrompida de forma abrupta. Na avaliação apresentada, o impacto poderia alcançar funcionários administrativos, categorias de base e projetos sociais, além do elenco profissional. O argumento foi usado para defender uma análise conjunta dos efeitos econômicos e sociais da medida.
Reação nas redes se concentrou na comparação
A repercussão negativa começou após a circulação do vídeo com uma fala de aproximadamente dez minutos. No trecho, Montenegro afirmou que o drama de uma família endividada não poderia ser considerado maior do que o de uma família atingida pelo desemprego na cadeia do futebol.
Felipe Neto classificou a declaração como “uma das falas mais nojentas do século no Brasil”. O deputado Chico Alencar também criticou o discurso e disse que a frase seria candidata a uma das piores da audiência pública. As manifestações foram opiniões dos próprios autores e não representam uma decisão do STF sobre a medida.
Também houve críticas de torcedores nas redes sociais, com questionamentos sobre a forma como o presidente do Fluminense apresentou o tema. A controvérsia ficou concentrada na comparação entre o endividamento familiar e a possibilidade de perda de empregos, e não em uma negativa do dirigente sobre a existência de danos associados às apostas.
O clube manteve a posição defendida por Montenegro. A instituição sustenta que qualquer mudança na publicidade das bets deveria levar em conta os contratos em vigor e os efeitos de uma interrupção sem prazo suficiente para reorganização financeira.
Fluminense pede período de adaptação
Outro ponto destacado pelo dirigente foi a necessidade de uma transição. Montenegro defendeu que eventuais restrições sejam aplicadas de maneira gradual, permitindo aos clubes renegociar compromissos comerciais e procurar alternativas de receita.
Segundo a argumentação apresentada na audiência, experiências internacionais com limitações à publicidade de apostas teriam adotado períodos de adaptação de pelo menos dez meses. No cenário brasileiro citado pelo presidente, o prazo considerado seria de aproximadamente dez dias. A diferença, na visão do Fluminense, dificultaria a substituição dos contratos e ampliaria o risco de desequilíbrio financeiro.
A posição do clube está relacionada à dependência que parte do futebol brasileiro desenvolveu em relação aos patrocínios de empresas de apostas. De acordo com a cobertura do debate, o Fluminense afirma que a atividade alcança 640 mil empregos e pode sustentar 2,4 milhões de pessoas. O número foi apresentado como argumento econômico no contexto da discussão, sem que a audiência tenha produzido uma conclusão sobre o tema.
Audiência reuniu clubes e órgãos públicos
Além do Fluminense, a audiência contou com representantes de equipes como Flamengo, Botafogo, Cruzeiro, São Paulo, Corinthians, Ponte Preta, Vitória, Guarani e Portuguesa. A relação citada na cobertura também inclui a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Comitê Olímpico do Brasil.
Participaram ainda representantes dos ministérios da Fazenda e do Esporte, da Advocacia-Geral da União e da Procuradoria-Geral da República, além de associações ligadas ao mercado de apostas e setores afetados pelas possíveis restrições.
O debate colocou em discussão dois grupos de preocupações: a proteção de consumidores e famílias prejudicadas pelo endividamento e os efeitos econômicos de uma mudança imediata para clubes e trabalhadores. Montenegro pediu que esses impactos fossem avaliados simultaneamente, sem que a defesa dos empregos fosse usada para negar os problemas sociais das apostas.
Até as informações disponíveis nas fontes, não havia decisão sobre o pedido de suspensão apresentado na audiência. A MP 1.394/2026 permanecia em discussão no Congresso Nacional, com votação prevista até 23 de novembro, conforme o calendário citado. A nota de Montenegro, portanto, teve como objetivo esclarecer a fala e reafirmar a defesa de um prazo de adaptação para os clubes.