A disputa pelo controle da SAF do Botafogo ganhou um novo capítulo no Reino Unido. A Suprema Corte britânica concedeu, em 9 de setembro, uma liminar que impede a Eagle Bidco, atualmente sob administração judicial da Cork Gully LLP, de vender, transferir ou modificar o controle das ações relacionadas à sociedade.
A ordem também alcança medidas que possam reduzir o valor das ações ou dos ativos do Botafogo. Caso seja descumprida, a determinação pode levar a sanções por desacato à Justiça britânica. O efeito imediato é preservar a estrutura patrimonial sob discussão até que os processos em andamento produzam novos desdobramentos.
A decisão de Londres não encerra a disputa nem define quem terá o comando definitivo da SAF. O conflito também tramita na Justiça brasileira e envolve John Textor, o clube associativo e a validade das mudanças na composição acionária. Por isso, a liminar funciona como uma medida de proteção temporária, e não como uma sentença final sobre a propriedade da empresa.
Composição acionária é alvo de versões diferentes
Os números divulgados nas reportagens exigem uma distinção. A decisão britânica é descrita como uma proteção sobre 90% das ações administradas pela Cork Gully. Ao mesmo tempo, a situação atual informada pelas fontes aponta que a Eagle Bidco detém 49% da SAF, enquanto os outros 51% estão sob controle do Botafogo associativo.
Essa alteração é relacionada à ativação de um bônus de subscrição pelo clube social, em meio à alegação de fraude no aporte realizado por Textor. O empresário e sua defesa contestam a posição que levou à transferência do controle majoritário para a associação. A validade desse movimento, contudo, permanece vinculada aos processos judiciais no Brasil.
A diferença entre a participação atualmente atribuída à Eagle e o percentual alcançado pela ordem de Londres ajuda a explicar a complexidade do caso. A liminar não deve ser interpretada, isoladamente, como reconhecimento de que uma das partes venceu a disputa acionária. Ela impede determinadas operações enquanto os tribunais analisam as questões apresentadas pelos envolvidos.
Entre os possíveis desdobramentos citados está uma negociação com a GDA Luma. A defesa de Textor avalia que a determinação britânica dificulta a venda da SAF, porque restringe a possibilidade de a Eagle Bidco ou a Cork Gully alterarem o controle ou transferirem as ações protegidas pela ordem.
O clube associativo apresenta uma leitura diferente. A associação entende que a decisão está alinhada a um pedido feito anteriormente na Justiça brasileira para impedir que a Eagle ou a administradora judicial negociassem os ativos fora das condições defendidas pelo Botafogo social. Assim, o mesmo ato judicial é usado pelas partes para sustentar interpretações opostas sobre os efeitos em uma eventual operação com a GDA Luma.
Textor adota tom de conciliação após a decisão
Após a liminar, John Textor enviou uma manifestação ao blog do jornalista Diogo Dantas, de O Globo. Em vez de apresentar a medida apenas como uma vitória contra o clube associativo, o norte-americano afirmou que ela pode trazer mais clareza e estabilidade para o Botafogo.
Textor disse que a torcida merece profissionalismo e um plano definido para o futuro. Também afirmou que a decisão oferece maior segurança jurídica enquanto os processos brasileiros continuam, mas defendeu que o momento seja usado para reorganizar o clube e restaurar a paz, e não para comemorar uma derrota do outro lado.
O empresário declarou ainda que permanece aberto ao diálogo com os responsáveis pelo clube social. Na avaliação apresentada por ele, as divergências não deveriam impedir a busca de um objetivo comum: construir um Botafogo mais forte, profissional e vitorioso.
A manifestação também mencionou os parceiros estratégicos que, segundo Textor, continuam apoiando o projeto. O ex-controlador da SAF afirmou que esses aliados possuem capital e experiência superiores aos de outros interessados e defendeu a recuperação da saúde financeira e do futebol do clube.
Essa referência, porém, não veio acompanhada, no material apurado, de detalhes sobre uma operação específica, valores ou um acordo concluído com o Botafogo associativo. A fala foi apresentada como uma defesa da capacidade dos parceiros de contribuir para o futuro da instituição, enquanto a disputa sobre o controle segue submetida aos tribunais.
Para o Botafogo, o impacto prático mais imediato é a manutenção do bloqueio sobre operações que possam alterar o controle acionário ou diminuir o valor dos ativos abrangidos pela liminar. A decisão também cria uma barreira jurídica para qualquer movimentação que não respeite as condições determinadas pela Suprema Corte do Reino Unido.
O caso continua dividido entre duas frentes. No Reino Unido, a discussão envolve a administração da Eagle Bidco pela Cork Gully e a preservação das ações. No Brasil, permanecem em análise as alegações relacionadas ao aporte de Textor, à ativação do bônus de subscrição e à transferência dos 51% para o clube associativo.
Enquanto não houver uma definição sobre esses pontos, a liminar não estabelece o controlador definitivo da SAF e tampouco resolve as acusações apresentadas pelas partes. O futuro societário do Botafogo dependerá dos próximos atos judiciais nos dois países e de eventual entendimento entre Textor e a associação.