Jorge Jesus afirmou que a redução do limite de jogadores estrangeiros não resolverá, por si só, os problemas de formação do futebol brasileiro. O técnico da seleção de Portugal avaliou que a qualidade do trabalho nas categorias de base e a organização do calendário têm influência maior no desenvolvimento dos atletas nacionais.
A manifestação ocorreu neste sábado, 26 de setembro, durante entrevista coletiva antes do confronto entre Portugal e Noruega, pela Liga das Nações. A declaração foi dada em meio à discussão sobre a mudança aprovada pelos clubes das Séries A e B para diminuir gradualmente a quantidade de estrangeiros permitida por equipe no Brasil.
“Não é o fato de reduzir o número de nove para cinco jogadores que vai melhorar o futebol brasileiro. Não é por aí que vai melhorar a qualidade do futebol no Brasil”, declarou Jesus. Em outro momento, o treinador resumiu sua avaliação: “O problema é a formação, é a qualidade da formação e o calendário de partidas”.
Modelo português entrou no debate
Para explicar seu ponto de vista, o técnico usou Portugal como referência. Segundo Jesus, o país consegue revelar jogadores de alto nível mesmo em um campeonato no qual os clubes podem escalar uma grande quantidade de atletas estrangeiros.
“Portugal é um dos países que melhor forma atletas na Europa. E se o treinador quiser, pode atuar com 11 jogadores estrangeiros aqui”, afirmou. Na visão do comandante, a possibilidade de contar com jogadores de outras nacionalidades não impede que o futebol português continue produzindo talentos para suas equipes e para o cenário europeu.
A comparação não significa que o treinador considere irrelevante a criação de oportunidades para brasileiros. O argumento central é que limitar o mercado internacional não garante automaticamente uma melhora técnica nos jogadores formados no país. Para que isso aconteça, seria necessário qualificar o processo de desenvolvimento desde as categorias de base.
Esse processo envolve, na avaliação apresentada por Jesus, a qualidade da formação e a maneira como as competições são distribuídas ao longo da temporada. A mudança no limite pode alterar o planejamento dos clubes e a composição dos elencos, mas não substitui o trabalho de treinadores, estruturas de treinamento e desenvolvimento de jovens atletas.
Redução começa em 2027
A regra aprovada prevê uma diminuição gradual do limite. Atualmente, cada equipe pode contar com até nove estrangeiros. A partir de 2027, o número passará para oito por clube, com novas reduções previstas até chegar a cinco atletas de outros países em 2030.
A proposta tem como objetivo declarado ampliar o espaço para jogadores brasileiros, principalmente aqueles revelados pelos próprios clubes. A discussão ganhou força com o aumento da presença estrangeira na Série A e com a preocupação de dirigentes sobre a disponibilidade de vagas nos elencos profissionais.
O teto permitido também mudou recentemente. Em 2023, passou de cinco para sete jogadores por equipe. No ano seguinte, chegou a nove. Um levantamento citado na apuração mostra que o número de estrangeiros relacionados na Série A subiu de 103, em 2022, para 187 na edição atual. O crescimento corresponde a 81,6%.
Esse avanço ajuda a explicar a decisão dos clubes, mas também estabelece o alcance do debate. A limitação pode influenciar contratações e reduzir alternativas no mercado internacional, porém não define sozinha o nível dos jogadores brasileiros. O resultado dependerá de como os clubes utilizarão o espaço aberto nos elencos e de quais condições serão oferecidas aos atletas em formação.
O Flamengo aparece entre as equipes interessadas no tema por possuir jogadores de diferentes nacionalidades em seu elenco. O clube já demonstrou preocupação com a possibilidade de a redução diminuir as opções disponíveis no mercado internacional. A avaliação de Jesus, no entanto, é pessoal e não representa uma posição oficial do time que ele comandou entre 2019 e 2020.
Treinador é contra o fim dos estaduais
Na mesma entrevista, Jesus defendeu a continuidade dos Campeonatos Estaduais. A posição contrasta com propostas que sugerem reduzir ou eliminar essas competições para liberar datas no calendário nacional e internacional.
“Espero também que nunca acabem com os Campeonatos Estaduais, porque isso é um diferencial no crescimento do jogador brasileiro”, disse o português. Em outra formulação, classificou os torneios como uma fonte de crescimento para os atletas que surgem no país.
A defesa dos Estaduais está ligada à função que eles podem exercer para jogadores ainda sem espaço consolidado nas principais equipes. Com os elencos profissionais divididos entre diferentes competições, esses torneios podem oferecer minutos a atletas em desenvolvimento, embora o treinador não tenha detalhado um formato específico para o calendário.
Jesus também afirmou que o Brasil possui uma boa organização de calendário, mas não sabe aproveitá-la. A declaração relaciona duas questões frequentemente tratadas separadamente: a necessidade de melhorar a distribuição das partidas e a preservação de competições que, na visão dele, podem contribuir para a formação.
Assim, o treinador português rejeita uma solução baseada apenas na quantidade de estrangeiros e propõe que o futebol brasileiro concentre a discussão na formação e na organização das competições. A nova regra deverá modificar a montagem dos times nos próximos anos, mas, para Jesus, a evolução dos jogadores dependerá principalmente da qualidade do caminho percorrido até o futebol profissional.