O Flamengo estima que uma eventual proibição das casas de apostas no Brasil possa provocar um impacto negativo de aproximadamente R$ 400 milhões em suas finanças ao longo de 2027. A projeção é atribuída ao presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e foi apresentada enquanto o governo federal prepara mudanças para restringir ou encerrar a operação das bets no país.
O clube divulgou uma nota oficial nesta sexta-feira (25) em defesa da continuidade do mercado regulado. Na avaliação rubro-negra, uma decisão abrupta não atingiria apenas o patrocínio máster, mas também receitas ligadas à publicidade, às transmissões, aos estádios e a outros negócios que dependem dos investimentos das empresas de apostas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pretende assinar uma medida provisória para acabar com as bets. O governo relaciona a iniciativa a problemas de endividamento e saúde pública associados ao jogo, incluindo casos de dependência. O texto final da eventual medida e seus prazos de aplicação, porém, não estão detalhados no material disponível.
Patrocínio da Betano é apenas parte da preocupação
O impacto mais evidente para o Flamengo envolve a Betano, atual patrocinadora máster. O acordo prevê R$ 268 milhões por temporada até o fim de 2028, conforme as informações disponíveis. A empresa declarou que acompanha a discussão com preocupação e que tomará decisões no momento apropriado.
O contrato, no entanto, não representa toda a exposição do clube ao setor. A estimativa atribuída a Bap considera também os efeitos indiretos de uma retirada das bets do mercado brasileiro. As empresas do segmento compram espaços em placas e propriedades dos estádios, anunciam em transmissões e participam de diferentes formatos de publicidade esportiva.
Com a eventual saída desses investidores, o Flamengo poderia perder capacidade de substituir rapidamente contratos e receitas vinculadas ao ecossistema comercial das apostas. A projeção de R$ 400 milhões para 2027, portanto, reúne impactos diretos e indiretos, e não apenas o valor anual do acordo com a Betano.
A nota do clube também trata da segurança jurídica. O Flamengo argumenta que o Congresso aprovou um marco regulatório, o governo estabeleceu regras e as empresas fizeram investimentos para operar legalmente, com compromissos de fiscalização, tributação e proteção ao consumidor.
O posicionamento não defende que as normas sejam mantidas sem alterações. O clube afirma que eventuais falhas devem ser corrigidas, que as exigências podem ser endurecidas e que empresas que descumprirem a legislação precisam ser punidas. A diferença apontada pelo Flamengo está entre aperfeiçoar o modelo existente e desmontar o mercado regulado.
Efeito pode alcançar clubes e outras modalidades
O debate ultrapassa a situação financeira do Rubro-Negro. Treze clubes da Série A possuem atualmente contratos de patrocínio máster com casas de apostas, em uma linha de receita estimada em cerca de R$ 1 bilhão. Esse valor não corresponde ao impacto total no futebol, mas dimensiona a presença do setor nos principais contratos comerciais dos clubes.
Também existe uma relação indireta com os direitos de transmissão. As emissoras que compram competições obtêm parte de suas receitas com publicidade, inclusive de empresas de apostas. Uma redução significativa desses anunciantes poderia afetar a capacidade de investimento das empresas de comunicação e, em consequência, pressionar receitas e premiações relacionadas aos campeonatos.
O Flamengo cita ainda publicidade estática, placas de estádio, arenas, fornecedores, empresas de marketing e tecnologia e prestadores de serviços. Na visão do clube, a cadeia inclui empregos diretos e indiretos e não se restringe às instituições que assinam contratos de patrocínio.
A manifestação menciona o futebol profissional, as categorias de base, o futebol feminino, os esportes olímpicos e os campeonatos. A preocupação apresentada é que organizações com menor capacidade financeira tenham mais dificuldade para substituir investimentos de apostas, ampliando a diferença entre clubes e modalidades.
Clube questiona efeito sobre o mercado ilegal
Outro argumento do Flamengo está relacionado à arrecadação pública. O mercado regulado permite a cobrança de impostos e as destinações previstas em lei. Para o clube, enfraquecer as empresas autorizadas poderia reduzir recursos destinados ao esporte e ao Estado sem necessariamente eliminar o hábito de apostar.
A nota cita uma pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada em maio de 2026 com 2.291 apostadores, e um estudo da LCA Consultores baseado nesse levantamento. Segundo os dados apresentados, entre 38% e 44% do valor apostado on-line no Brasil estaria em plataformas clandestinas no primeiro semestre de 2026.
O mesmo material aponta que a participação estimada do mercado ilegal ficava entre 41% e 51% em 2025, após a regulamentação. A comparação é usada pelo Flamengo para sustentar que a legalização teria ampliado a parcela da atividade submetida a regras, fiscalização e tributação, ainda que não tenha eliminado os operadores clandestinos.
O governo, por sua vez, sustenta que as restrições respondem a consequências sociais das apostas. Lula afirmou que há brasileiros endividados e pessoas enfrentando problemas de saúde relacionados ao jogo. Também criticou a dependência financeira dos clubes em relação às empresas do setor.
O ponto de conflito está, portanto, entre a proteção contra endividamento e ludopatia e a defesa de um mercado supervisionado. Para o Flamengo, proibir as empresas autorizadas pode deslocar parte da atividade para plataformas ilegais, com menor capacidade de controle sobre publicidade, pagamentos e proteção ao consumidor.
Enquanto a medida anunciada pelo governo não tiver seu conteúdo e calendário definidos, não é possível determinar como contratos vigentes serão encerrados, preservados ou adaptados. Para o Flamengo, a discussão tem consequência imediata porque envolve o maior acordo comercial do clube e uma projeção de perda que supera o patrocínio máster isoladamente.