O Flamengo votou contra as duas mudanças propostas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para os Campeonatos Brasileiros das Séries A e B. As medidas aprovadas pela maioria dos clubes reduzem gradualmente o número de estrangeiros relacionados por partida e criam uma exigência mínima de jogadores sub-23 entre os inscritos. As novas regras começarão a valer em 2027.
Representado pelo presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, o clube tentou incluir na reunião uma alteração na norma que limita a transferência de jogadores entre equipes da Série A depois que eles atingem determinado número de partidas. Como o tema não estava previsto na pauta, a CBF não colocou a proposta em votação. A entidade indicou que a discussão deverá continuar em um próximo encontro com os clubes.
A divergência é explicada, em parte, pelo elenco atual do Flamengo. O clube tem dez estrangeiros e já precisa deixar pelo menos um deles fora da relação de um jogo do Brasileirão quando todos estão disponíveis, pois o limite vigente é de nove atletas por partida. A diretoria entende que uma flexibilização das transferências poderia ampliar as alternativas de reposição no mercado nacional caso o novo teto obrigue outras equipes a manter jogadores fora da súmula.
Limite cairá de nove para cinco jogadores
O teto de estrangeiros relacionados em cada partida será reduzido de maneira escalonada. Em 2027, cada clube poderá levar até oito atletas de outros países para um jogo. O número cairá progressivamente até chegar a cinco em 2030. A regra vale para as duas principais divisões do futebol brasileiro e não altera os limites das competições organizadas pela Conmebol.
A mudança não afeta o Brasileirão de 2026, que está em andamento. Também não impede o Flamengo de utilizar seu grupo completo na Libertadores, na Copa Sul-Americana ou na Recopa Sul-Americana, competições que possuem regulamentos próprios. O modelo gradual foi aprovado como forma de reduzir o impacto sobre contratos já firmados e permitir uma adaptação dos elencos.
Bahia e Flamengo foram apontados como os clubes contrários à redução. A proposta também retoma, em 2030, um teto de cinco estrangeiros, limite que vigorou no futebol brasileiro antes das alterações mais recentes. Em 2014, a permissão havia passado de três para cinco; em 2023, subiu para sete; e, no ano seguinte, chegou aos atuais nove jogadores por súmula.
O Flamengo relaciona dez estrangeiros no elenco: Rossi, Varela, De la Cruz, Saúl, Pulgar, Arrascaeta, Plata, Valencia, Joaquín Freitas e Carrascal. Com o limite atual, a administração do grupo já exige escolhas a cada rodada. A redução futura acrescentará uma dificuldade esportiva e financeira ao planejamento, embora o texto aprovado ainda não determine quais atletas deverão ser priorizados ou excluídos.
Cota de jovens terá aumento até 2030
A segunda medida aprovada mantém em 50 o número máximo de inscritos por clube no Brasileirão, mas divide a relação em dois grupos. A partir de 2027, pelo menos 20 jogadores deverão ter até 23 anos. A exigência será de 21 em 2028, 23 em 2029 e 25 em 2030. Na configuração final, a lista terá 25 atletas sub-23 e outros 25 sem restrição de idade.
A regra trata da inscrição, não da escalação. Portanto, os treinadores não serão obrigados a utilizar jovens durante as partidas. A decisão sobre quem entrará em campo continuará sob responsabilidade das comissões técnicas. Segundo os dados apresentados pela CBF, 16 clubes da Série A e 17 da Série B já se enquadram na exigência prevista para 2027, mesmo antes da norma entrar em vigor.
A entidade associou as medidas à menor participação de jogadores jovens no campeonato. No Brasileirão de 2026, os brasileiros sub-23 somam 11,5% dos minutos disputados, contra 28,3% em 2020. Quando também são considerados os estrangeiros dessa faixa etária, a participação chega a 14%.
Em sentido oposto, os estrangeiros com mais de 23 anos alcançam 25% dos minutos da Série A em 2026. Em 2021, eles representavam 7,1%. A CBF contabiliza ainda 146 jogadores estrangeiros que já entraram em campo nesta edição, além de outros 13 que podem estrear.
CBF aponta envelhecimento da elite nacional
Outro argumento utilizado pela entidade é a elevação da média de idade dos atletas inscritos na primeira divisão. O índice atual é de 28,5 anos, acima dos 27,3 registrados em 2020. Também supera as médias informadas para as principais ligas europeias: 27 anos na Espanha, 26,4 na Inglaterra, 26,3 na Alemanha, 26,1 na Itália e 26 na França.
Os estudos apresentados relacionam esse cenário ao modelo de mercado brasileiro. Entre 2016 e 2025, 79% das receitas dos clubes nacionais com a venda de jogadores vieram de atletas sub-23, segundo os dados da CBF. Os jogadores sub-20 responderam sozinhos por 50,1% do faturamento. Para a confederação, a exportação precoce de jovens e a contratação de atletas mais experientes ajudam a explicar a menor minutagem dos brasileiros em formação.
A proposta de reduzir o espaço para estrangeiros e reservar vagas para sub-23 foi apresentada como uma tentativa de alterar essa tendência. O Movimento dos Clubes Formadores do Futebol Brasileiro já havia levado à CBF a demanda pela redução do limite de atletas estrangeiros.
Transferências e calendário ainda serão discutidos
O Flamengo considerou que a regra de transferências deveria ser analisada junto com o corte de estrangeiros. As fontes divergem sobre o marco exato atualmente usado para impedir uma mudança de clube dentro da Série A: há referência a 12 jogos e também a 13 partidas. O ponto comum é que Bap pediu a revisão dessa restrição, mas não houve votação na reunião.
O tema deverá voltar à pauta em um encontro futuro entre a CBF e os clubes, previsto para o mês seguinte. Também ficou para outra etapa a discussão sobre a eventual criação de times B, mencionada durante a reunião.
Os clubes ainda aprovaram uma proposta para reorganizar os horários dos jogos do Brasileirão a partir de 2027, mas a mudança depende da análise dos detentores dos direitos de transmissão. A sugestão elimina partidas aos fins de semana a partir das 20h e confrontos em dias úteis antes das 19h30, além de reservar as segundas e sextas-feiras, às 20h, como horários de uso excepcional na Série A. Caso haja pedidos de alteração, o calendário terá de retornar aos clubes.
Assim, o Flamengo encerrou a reunião mantendo sua oposição às duas mudanças esportivas, enquanto a CBF avançou com um modelo que afetará diretamente a montagem dos elencos a partir de 2027. A próxima rodada de negociações deverá definir se a limitação de transferências internas será modificada e como o novo regulamento será aplicado na prática.