O Flamengo já trabalha com a possibilidade de vender jogadores para cumprir compromissos financeiros caso se confirme a perda de receitas ligadas ao patrocínio das casas de apostas. José Boto, diretor de futebol do clube, afirmou que o pior cenário para 2027 pode envolver a negociação de um, dois ou até três atletas sem que o Rubro-Negro consiga contratar substitutos do mesmo nível.
A declaração não representa uma decisão tomada nem indica que existam nomes definidos para deixar o elenco. Trata-se de uma das alternativas avaliadas pela diretoria diante dos efeitos previstos para os contratos de patrocínio e para o orçamento da próxima temporada. Boto ressaltou, porém, que o Flamengo não pretende deixar de honrar compromissos já assumidos com outros clubes.
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O dirigente foi categórico ao separar os pagamentos de atletas e funcionários das demais obrigações financeiras. Segundo Boto, mesmo no cenário mais negativo, o clube não considera atrasar salários ou deixar de pagar os vencimentos dos profissionais.
“Mesmo no pior cenário nunca estará em risco os salários dos jogadores e dos funcionários. Isso nunca vai estar em pauta. O que vai estar em pauta são os compromissos que assumimos com os outros clubes”, afirmou o diretor, em entrevista coletiva.
A garantia inclui os valores devidos aos jogadores e funcionários do Flamengo. Na avaliação apresentada por Boto, a discussão financeira está concentrada em como o clube manterá pagamentos relacionados a acordos firmados anteriormente, inclusive parcelas de contratações, depois de uma eventual redução das receitas esperadas.
O executivo afirmou que mantém reuniões frequentes com o presidente Luiz Eduardo Baptista para projetar diferentes cenários. De acordo com o relato de Boto, os encontros começaram após a implementação da medida provisória e também ocorreram por telefone durante sua passagem por Portugal. O objetivo é preparar o planejamento de 2027 considerando a hipótese mais desfavorável.
Reposição pode perder força no mercado
A possível venda de atletas não seria, necessariamente, acompanhada por reposições equivalentes. Boto explicou que a falta de recursos poderia obrigar o Flamengo a reduzir a atividade no mercado de transferências, deixando vagas abertas ou buscando alternativas de menor custo.
“Como não podemos comprar porque para comprarmos precisamos de dinheiro, que é uma coisa que não temos neste momento”, disse o diretor ao tratar do cenário sem o patrocínio. Ele acrescentou que o clube poderia vender jogadores para pagar compromissos e não conseguir repor as saídas com a mesma qualidade.
Essa perspectiva também influencia a avaliação sobre os contratos do atual grupo. Boto afirmou que, a princípio, a crise não deve impedir a renovação de jogadores que já fazem parte do elenco. Pelo contrário, o clube tende a dar mais atenção à manutenção das peças que possui, em vez de depender de novas contratações para sustentar o planejamento esportivo.
Entre os jogadores citados como envolvidos em tratativas de renovação estão Danilo, Pedro e Léo Pereira. O Flamengo também já assegurou as permanências de Erick Pulgar, Bruno Henrique e Alex Sandro, conforme as informações divulgadas sobre o planejamento do elenco. A possibilidade de vendas mencionada por Boto, contudo, não foi vinculada a nenhum desses nomes.
Receita e compromissos em discussão
O risco financeiro está relacionado principalmente à possibilidade de perda do contrato de patrocínio máster da Betano. O acordo é apontado como uma fonte de R$ 268,5 milhões por temporada. Sem essa receita, a diretoria teria de reorganizar o orçamento e rever a capacidade de investimento, embora o impacto final dependa da situação jurídica e contratual da medida.
Uma das estimativas divulgadas nos bastidores do clube aponta um possível rombo de R$ 430 milhões provocado pela proibição das apostas, mas esse valor aparece como projeção interna e não como balanço financeiro definitivo. Boto não apresentou uma lista de cortes nem confirmou que o Flamengo já tenha decidido vender atletas.
A preocupação inclui compromissos assumidos com base em contratos considerados legais pela diretoria. Ao explicar uma fala de Baptista sobre como o clube pagaria a operação envolvendo Lucas Paquetá, Boto afirmou que a questão não se restringia ao meia. Segundo o diretor, a dúvida dizia respeito ao conjunto de acordos firmados pelo Flamengo contando com receitas de patrocínio previstas.
A negociação de Paquetá foi descrita pela cobertura do caso como uma operação superior a R$ 315 milhões, considerando transferência, luvas e intermediação. O valor foi mencionado no contexto da discussão sobre compromissos futuros, e não como indicação de que o jogador esteja ameaçado de venda ou de que o pagamento tenha sido interrompido.
Flamengo recorre ao STF
Além do planejamento financeiro, o Flamengo decidiu participar da discussão jurídica sobre a Medida Provisória nº 1.394/2026. O clube ingressou no Supremo Tribunal Federal como amicus curiae na Ação Direta de Inconstitucionalidade 8.027/DF, que questiona a constitucionalidade da norma.
Na manifestação divulgada pelo clube, a intenção é apresentar ao STF os efeitos da medida sobre os contratos de patrocínio, o financiamento do esporte, as modalidades olímpicas e as categorias de formação. O Flamengo afirmou que não é contrário à regulamentação das casas de apostas, mas defende segurança jurídica, proteção da confiança e preservação do fomento esportivo.
O tema ultrapassa a montagem do elenco porque a diminuição dos investimentos das empresas de apostas pode atingir outros clubes brasileiros. Boto avaliou que o dinheiro retirado do futebol nacional poderia ser direcionado a mercados concorrentes, como o argentino, mas essa é uma projeção do dirigente, não uma consequência confirmada.
Por enquanto, o Flamengo mantém o planejamento aberto. Não há anúncio de jogadores negociáveis, mudança definitiva na política de contratações ou confirmação de vendas. A diretoria aguarda a definição dos efeitos sobre os contratos de patrocínio e, paralelamente, trabalha para preservar os salários e cumprir as obrigações financeiras assumidas.