O Cruzeiro deve negociar jogadores nas próximas janelas, mas a diretoria não pretende abandonar o mercado. A avaliação de Artur Jorge é que o clube precisa encontrar um ponto de equilíbrio entre a manutenção da competitividade, a valorização de atletas e o controle dos investimentos.
Em entrevista ao Globo Esporte MG, o treinador português afirmou que será difícil preservar todos os principais nomes do elenco. Ao mesmo tempo, deixou claro que eventuais vendas não significarão uma retração completa do projeto esportivo. “Nós vamos comprar, obviamente. Agora, este equilíbrio é fundamental”, declarou.
Vendas devem financiar parte do próximo ciclo
A estratégia já começou a ser aplicada na janela mais recente. Christian e Kaiki, titulares do Cruzeiro, foram negociados, enquanto o clube contratou seis jogadores e investiu mais de R$ 100 milhões no período. Segundo Artur Jorge, algumas peças foram mantidas com esforço justamente para evitar uma perda significativa de rendimento.
“Nesta janela, vendemos jogadores, mas mantivemos alguns outros a muito custo para não perder a competitividade da equipe”, afirmou o técnico. A declaração indica que o clube deverá continuar administrando saídas e reposições de forma conjunta, sem tratar cada negociação apenas como uma operação financeira.
Durante a pausa para a Copa do Mundo, o Cruzeiro recusou uma proposta superior a R$ 70 milhões por Jonathan Jesus e recebeu sondagens por Otávio. Artur Jorge não apontou esses atletas como futuros negociados, mas confirmou que novas movimentações são esperadas ao fim da temporada. Os dois defensores chegaram a aparecer na pré-lista de Carlo Ancelotti para amistosos da seleção brasileira em setembro; Otávio foi convocado e entrou em campo contra a Austrália.
Eventuais transferências de jogadores importantes poderão gerar recursos para novas contratações. A prioridade, porém, será preservar a estrutura do time e evitar que a saída de titulares reduza a capacidade de disputa do Cruzeiro. Por isso, o treinador fala em reposições ponderadas, e não em uma sequência de investimentos elevados a cada janela.
Clube quer desenvolver jovens antes de negociar
O planejamento também prevê um período maior de desenvolvimento para os atletas mais novos. Artur Jorge criticou a prática de jogadores deixarem os clubes brasileiros ainda adolescentes, antes de atuar de forma consistente no time principal. Para o treinador, dar espaço e tempo de evolução pode aumentar tanto o retorno esportivo quanto o valor de uma futura transferência.
Felipe Morais é o principal exemplo citado. O atacante estreou aos 17 anos em um amistoso disputado durante a pausa da Copa do Mundo, passou a fazer parte do elenco profissional e renovou o contrato com o Cruzeiro. O jogador já era observado por clubes europeus desde o começo do ano.
“O jovem jogador desponta e é vendido com 15, 16, 17 anos, sem nunca muitas vezes ter vestido a camisa da equipe principal”, disse Artur Jorge. A ideia do clube é evitar uma saída precoce sempre que houver condições de manter o atleta, permitindo que ele se afirme antes de uma possível negociação.
O técnico também citou Otávio, Jonathan Jesus e Kenji entre os jogadores com margem para evolução e valorização. De acordo com o treinador, metade do elenco do Cruzeiro tem menos de 23 anos. O perfil permite combinar atletas em busca de afirmação com nomes já capazes de contribuir no time profissional.
Projeto mira títulos, mas exige organização
A política de mercado está ligada a uma mudança mais ampla no Cruzeiro desde a chegada de Pedro Lourenço, em abril de 2024. Nas primeiras janelas, o clube aumentou os investimentos e a folha salarial com o objetivo de elevar o nível do elenco. Mais recentemente, passou a buscar um grupo com idade mais equilibrada e potencial de gerar receitas no curto e no médio prazo.
Entre os investimentos mencionados estão Arroyo, com R$ 50 milhões, Gabriel Pec, com R$ 60 milhões, e Gerson, com R$ 170 milhões. Na última janela, Gabriel Rojas e Pec foram contratados para ocupar os espaços deixados por Kaiki e Christian. O Cruzeiro também investiu cerca de R$ 20 milhões em Zé Lucas, de 18 anos e titular da seleção brasileira sub-20.
O elenco ainda recebeu reforços por empréstimo: o lateral-esquerdo Viña e os atacantes João Costa, Lucho Rodríguez e Wesley. A movimentação mostra que o clube não pretende depender de um único modelo. A formação de jogadores, a contratação de atletas jovens e a chegada de nomes para o time principal fazem parte da mesma tentativa de manter o nível competitivo sem perder o controle financeiro.
Em outra entrevista, ao Charla Podcast, Artur Jorge relacionou esse planejamento à ambição de colocar o Cruzeiro novamente na disputa por títulos. O treinador afirmou que o clube tem a obrigação de se estruturar para ficar mais próximo das conquistas, mas reconheceu que o futebol brasileiro reúne seis ou sete candidatos ao título no início de cada Campeonato Brasileiro.
O português também apontou Flamengo e Palmeiras como referências não apenas pelo elenco, mas pelo nível de organização e pela estrutura de trabalho. Para ele, o Cruzeiro ainda precisa cumprir etapas para alcançar esse patamar. A renovação contratual até o fim de 2030 foi apresentada como parte de um projeto de longo prazo, com responsabilidade compartilhada entre comissão técnica e diretoria.
Assim, as próximas janelas terão duas exigências simultâneas: negociar quando necessário e preservar a capacidade de competir. A continuidade do trabalho dependerá do aproveitamento dos jovens, da reposição dos titulares que deixarem o clube e da capacidade de transformar investimentos em desempenho. Para Artur Jorge, esse equilíbrio é o caminho para sustentar o Cruzeiro esportivamente e criar condições de buscar títulos no futuro.