Conselho do São Paulo expulsa Júlio Casares por 224 votos a 2
Ex-presidente deixa o quadro associativo do clube após processo disciplinar; conselheiros também recomendaram ressarcimento por despesas pessoais no cartão corporativo.
Júlio Casares foi excluído do quadro associativo do São Paulo após uma votação do Conselho Deliberativo realizada nesta quinta-feira. A medida recebeu 224 votos favoráveis, dois contrários e cinco abstenções. O pleito ocorreu de forma híbrida, com participação presencial no auditório do Morumbis.
Na mesma reunião, os conselheiros aprovaram a recomendação para que o ex-presidente ressarça o clube por eventuais despesas particulares feitas com o cartão corporativo. A decisão tem caráter associativo e disciplinar e encerra, dentro da estrutura interna do São Paulo, o processo instaurado para analisar a conduta de Casares durante sua administração.
O ressarcimento ainda não tem valor definitivo. A quantia deverá ser calculada pelo departamento financeiro do clube e posteriormente submetida à validação do Conselho Fiscal. A Comissão de Ética e Disciplina fundamentou o pedido no artigo 11 do Estatuto Social, relacionado à reparação por dano ou prejuízo material causado à instituição.
Como o processo disciplinar foi conduzido
A recomendação de expulsão partiu da Comissão de Ética e Disciplina, formada por cinco integrantes: Luiz Augusto Lia Braga, Mario Celso da Silva Braga, Milton José Neves Júnior, José Edgard Galvão Machado e Fábio Cesar de Souza Azambuja. O colegiado aprovou por unanimidade o parecer pela eliminação de Casares do quadro associativo.
O enquadramento utilizado no relatório foi o parágrafo 8º do artigo 34 do estatuto são-paulino. O dispositivo prevê a eliminação de um associado que seja condenado definitivamente em processo judicial ou responsabilizado disciplinarmente pela prática de ato de gestão irregular ou temerária, conforme a legislação aplicável.
Casares não compareceu à audiência da Comissão de Ética realizada em 31 de julho. Ele apresentou uma defesa por escrito por meio de seus representantes. Os advogados Daniel Bialski, Bruno Borragine, André Bialski e Bruna Luppi alegaram que o ex-dirigente sofreu cerceamento do direito de defesa, porque documentos considerados necessários não teriam sido disponibilizados em tempo adequado.
Em nota, a defesa classificou o desfecho como abusivo, afirmou que o procedimento teve motivação política e mencionou suposta perseguição. Os advogados reiteraram a posição de que a atuação de Casares no São Paulo foi regular e disseram confiar no reconhecimento dessa tese pelas autoridades judiciais.
O relatório da Comissão de Ética rejeitou a alegação. O documento registra que foram fornecidos materiais financeiros, relatórios de auditoria, respostas do setor de compliance, protocolos relacionados a jogos e shows, regras para utilização do cartão corporativo e faturas de diferentes exercícios. Ainda de acordo com o parecer, a defesa teria reconhecido posteriormente o recebimento de parte da documentação solicitada.
Despesas e investigações que sustentaram a acusação
Entre os pontos analisados no processo está o uso do cartão corporativo do clube. A apuração citada pelas fontes aponta gastos de aproximadamente R$ 1 milhão atribuídos a despesas pessoais, com pouco mais da metade do valor reembolsada ao São Paulo. A recomendação aprovada pelo Conselho Deliberativo trata da possibilidade de cobrança integral das despesas consideradas particulares.
Outro episódio mencionado envolve cerca de R$ 7 milhões em saques realizados durante a gestão. O valor é investigado por uma força-tarefa da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo. A defesa de Casares sustenta que os recursos foram destinados a despesas relacionadas ao futebol. Essa versão foi apresentada pelos representantes do ex-presidente e não elimina o caráter investigativo do caso.
As apurações externas também alcançaram suspeitas de irregularidades em outras áreas do clube. Uma delas trata de uma suposta venda ilegal de ingressos para shows em um camarote do Morumbis. O inquérito da Polícia Civil citou Mara Casares, então diretora feminina, cultural e de eventos, e Douglas Schwartzmann, diretor adjunto de futebol de base. Os dois pediram licença dos cargos e, posteriormente, foram expulsos do clube em votação do Conselho.
Em dezembro de 2025, a Polícia Civil passou a investigar ainda um possível esquema de desvio de dinheiro em negociações de atletas. A apuração teria como ponto de partida operações realizadas desde 2021, no início da administração de Casares.
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras também foram citados na investigação. Segundo o material reunido na apuração, teriam sido identificados depósitos em dinheiro de aproximadamente R$ 1,5 milhão na conta de Casares entre janeiro de 2023 e maio de 2025. Os advogados do ex-presidente negaram irregularidades.
As autoridades também analisaram 35 saques em dinheiro feitos de contas do São Paulo entre 2021 e 2025. Os valores somariam R$ 11 milhões. A Polícia Civil passou a investigar, nesse contexto, Nelson Marques Ferreira, ex-diretor adjunto de futebol, diante de informações sobre a abertura de 15 empresas durante o período em que ele trabalhou no clube.
Consequências para Casares no São Paulo
Casares presidiu o São Paulo a partir de 2021. De acordo com as informações apuradas, ele deixou o cargo no começo de 2026, depois de ser afastado e renunciar. A expulsão aprovada agora rompe formalmente seu vínculo associativo com o clube e impede sua permanência na estrutura política sustentada pela condição de sócio.
A decisão interna não representa uma condenação criminal. As investigações da Polícia Civil e do Ministério Público seguem tratando de suspeitas e movimentações que ainda dependem de apuração pelas autoridades competentes. O Conselho Deliberativo, por outro lado, concluiu o julgamento disciplinar dentro do São Paulo e aplicou a punição prevista no estatuto.
Além da exclusão, o clube ainda terá de concluir a análise financeira para definir eventual cobrança relacionada ao cartão corporativo. A validação do Conselho Fiscal será necessária antes da formalização do valor. Assim, a consequência administrativa da votação está definida, enquanto a dimensão financeira do ressarcimento permanece sujeita às etapas internas previstas pelo estatuto.