A Almirante Participações e Empreendimentos S.A. foi declarada vencedora do processo competitivo para adquirir 90% da Sociedade Anônima do Futebol do Vasco. A definição ocorreu nesta sexta-feira (25), em audiência na 4ª Vara Empresarial, no Centro do Rio de Janeiro, e representa o principal avanço até agora na tentativa de mudança do controle do futebol vascaíno.
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A decisão judicial, contudo, não conclui a operação. A proposta ainda terá de ser examinada pelo Conselho Deliberativo do clube e, depois, submetida à Assembleia Geral. Até que essas etapas sejam cumpridas, a Almirante não assume oficialmente a administração da SAF, e a estrutura atual continua responsável pelo comando da sociedade.
Como foi definida a vencedora
A empresa ligada ao empresário Marcos Lamacchia participava do procedimento como stalking horse, expressão usada para identificar uma oferta-base em processos competitivos. Nesse modelo, o proponente de referência tem o direito de igualar uma eventual proposta superior apresentada por outro interessado.
Durante a audiência, porém, não surgiu uma oferta com condições melhores do que as oferecidas pela Almirante. Por isso, a Justiça confirmou a companhia como vencedora da disputa pela participação majoritária da SAF vascaína. O resultado define quem levou o processo competitivo, mas ainda não substitui as aprovações previstas na estrutura institucional do Vasco.
Lamacchia não esteve presencialmente na audiência. A Almirante foi representada por Mário Junqueira, que também é acionista da empresa, e pelo advogado André Sica. Pelo Vasco, participaram o presidente Pedrinho, o CEO da SAF, Fred Luz, e outros integrantes do conselho da sociedade.
Considerando as obrigações financeiras incluídas no negócio, a operação é estimada na casa dos R$ 3 bilhões. O processo está inserido no contexto da recuperação judicial do Vasco e envolve tanto a aquisição de 90% da SAF quanto compromissos relacionados às dívidas previstas no plano da operação.
Um dos principais pontos da proposta é a destinação de R$ 500 milhões exclusivamente para o futebol. O valor contempla investimentos no elenco e na estrutura esportiva, além de melhorias no Centro de Treinamento Moacyr Barbosa e ações voltadas às categorias de base.
O plano também prevê a adequação da folha de pagamentos ao fluxo de caixa da operação. A medida relaciona o custo do futebol à capacidade financeira projetada para a SAF, em vez de tratar a mudança societária apenas como uma troca de proprietário. A proposta inclui ainda a valorização dos esportes olímpicos do Vasco.
Outros compromissos apresentados no processo envolvem investimentos estruturais e a assunção das obrigações financeiras previstas na recuperação judicial. Como a venda ainda depende das instâncias internas do clube, esses compromissos permanecem vinculados à proposta vencedora e só poderão ser executados dentro da nova estrutura caso a operação seja aprovada e efetivada.
Próximas etapas mantêm o controle em transição
O Conselho Deliberativo será o primeiro órgão vascaíno a analisar formalmente a proposta. Em caso de aprovação, a operação avançará para a Assembleia Geral, que terá de deliberar sobre a mudança de controle da SAF. A ordem dessas etapas impede que a declaração judicial seja interpretada como transferência imediata das ações.
Na prática, o Vasco chega ao fim do processo competitivo com um vencedor definido, mas ainda sem um novo controlador instalado. A conclusão dependerá do cumprimento dos ritos internos e das exigências jurídicas relacionadas à recuperação judicial. Até lá, decisões administrativas e esportivas continuam sob a estrutura vigente da SAF.
Conexões com o Palmeiras entram no debate
A operação também passou a ser observada no Palmeiras por causa das relações familiares e empresariais entre pessoas ligadas ao grupo interessado na SAF vascaína. José Roberto Lamacchia, pai de Marcos e marido da presidente palmeirense Leila Pereira, aparece como avalista da proposta e integra o Conselho Deliberativo do clube paulista.
O grupo de oposição Ocupa Palestra defende que José Roberto deixe o conselho do Palmeiras caso a aquisição seja confirmada. A oposição também pede o encerramento de eventuais benefícios ou recursos associados a Leila Pereira em favor de clubes considerados adversários, citando como exemplo a possível utilização do avião da empresária.
Essas reivindicações representam uma posição política de um grupo oposicionista do Palmeiras. Não há indicação, no material disponível, de que elas tenham se transformado em decisão oficial do clube ou em determinação judicial. Também não foi confirmada participação direta de Leila na negociação atual pela SAF do Vasco.
A empresa envolvida no negócio foi criada em 2024 com o nome Top Gol Participações. Documentos societários mencionados na apuração mostram que Leila teve participação minoritária e indireta na estrutura inicial, por meio da Crefipar, mas deixou a composição em abril daquele ano. José Roberto permaneceu no controle até agosto de 2025, quando a empresa passou para Marcos Lamacchia.
A Almirante e os vínculos societários do grupo são analisados à luz das regras de fair play financeiro e das normas que limitam a influência de uma mesma pessoa ou grupo sobre mais de um clube. A Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol acompanha a estrutura para verificar possíveis conflitos de interesses. Essa análise preventiva, porém, não equivale à comprovação de uma irregularidade.
O próximo passo concreto será a avaliação política e institucional dentro do Vasco. Enquanto Conselho Deliberativo e Assembleia Geral não se manifestarem, a decisão da Justiça deve ser entendida como a confirmação da vencedora do processo de venda, e não como a conclusão definitiva da transferência da SAF.