A Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf) abriu um procedimento formal para investigar a venda da SAF do Vasco ao grupo comandado pelo empresário Marcos Lamacchia. A apuração busca esclarecer se a operação pode configurar conflito de propriedade ou influência no futebol brasileiro, considerando a relação familiar de Lamacchia com Leila Pereira, presidente do Palmeiras e da Crefisa.
Enquanto analisa o caso, a agência determinou medidas cautelares que restringem a relação entre Vasco, Palmeiras e o conglomerado financeiro ligado a Leila. A decisão impede, temporariamente, uma série de operações entre as partes. Entre elas estão negociações de jogadores, transações financeiras, compartilhamento de estruturas, divisão de profissionais e troca de informações consideradas sensíveis.
Anresf abre procedimento sobre a SAF
O procedimento foi instaurado na quarta-feira, depois de uma diligência iniciada pela unidade técnica da Anresf em junho. A decisão partiu da Segunda Turma de Julgamento da agência e levou em consideração documentos enviados pelo Vasco a respeito da proposta de investimento assinada com Lamacchia.
A abertura da investigação não representa, neste momento, uma conclusão de que exista irregularidade. A própria decisão ainda não examinou o mérito da disputa. O objetivo da Anresf é aprofundar a análise sobre a eventual existência de controle ou influência incompatível com as regras de Fair Play Financeiro aplicáveis ao futebol brasileiro.
A agência foi criada, segundo a informação publicada, para fiscalizar a aplicação dessas regras no país. O caso também pode ser analisado à luz do regulamento de Fair Play da Confederação Brasileira de Futebol, que impede que um mesmo grupo exerça algum tipo de controle sobre mais de uma equipe.
O artigo 86 do regulamento da Anresf estabelece que “qualquer pessoa, física ou jurídica, detenha, direta ou indiretamente, controle ou influência significativa sobre mais de um clube”. É a interpretação dessa norma diante da negociação da SAF vascaína que será examinada no procedimento.
Marcos Lamacchia é filho de José Lamacchia, casado com Leila Pereira. A presidente do Palmeiras também comanda a Crefisa. Essa estrutura familiar é o principal elemento que levou a agência a avaliar se a aquisição do Vasco poderia criar uma relação de influência entre os dois clubes, ainda que o interessado na operação seja Lamacchia.
O material disponível não informa que a Anresf já tenha definido se o parentesco, por si só, caracteriza controle ou influência significativa. A questão permanece em análise. A investigação deverá considerar os documentos da proposta de investimento e as relações comerciais e institucionais mencionadas no caso.
Medidas atingem Vasco e Palmeiras
Durante a vigência das cautelares, Vasco e Palmeiras não poderão negociar atletas, mesmo em operações sem custo. Também estão proibidos o uso de estruturas comuns, como centros de treinamento, e o compartilhamento de profissionais ou informações sensíveis entre os clubes.
A restrição inclui ainda operações financeiras. O Vasco não poderá tomar novos empréstimos da Crefisa enquanto a Anresf conduz a avaliação. A financeira emprestou R$ 80 milhões ao clube em 2025 e aparece como garantidora no acordo de investimento firmado entre o Vasco e Lamacchia.
A agência justificou as cautelares pela necessidade de evitar decisões ou interferências esportivas que, caso fossem tomadas antes do fim da análise, poderiam não ser revertidas posteriormente. A medida, portanto, foi adotada como precaução durante o procedimento, e não como uma decisão definitiva sobre a validade da venda da SAF.
Relação familiar provoca questionamentos
As relações entre Leila Pereira, Marcos Lamacchia, Palmeiras e Vasco já vinham sendo observadas pela Anresf havia meses. No domingo anterior à abertura do procedimento, Palmeiras e Vasco se enfrentaram pelo Campeonato Brasileiro, no Nubank Parque. Na ocasião, Leila esteve no gramado ao lado de Lamacchia, e os dois posaram para fotos com as camisas dos clubes.
O episódio ocorreu enquanto a negociação da SAF vascaína estava sob análise e contribuiu para ampliar a atenção sobre a proximidade entre os envolvidos. A imagem, contudo, não é apresentada como prova de irregularidade. O ponto central da investigação continua sendo a possibilidade de controle ou influência significativa sobre mais de um clube, conforme previsto no regulamento.
Em julho, o Flamengo havia enviado um ofício à Anresf solicitando que a agência analisasse a operação e impedisse a venda da SAF do Vasco ao empresário. A manifestação do clube carioca passou a fazer parte do conjunto de acontecimentos que antecederam a abertura formal do procedimento.
Envolvidos podem se manifestar
O Vasco recebeu a notificação sobre a abertura do procedimento na noite de quarta-feira. O Palmeiras também foi comunicado, assim como a Almirante Participações, empresa investidora de Lamacchia, e a Crefipar, conglomerado financeiro de Leila Pereira que inclui a Crefisa.
Segundo a informação divulgada, Palmeiras, Almirante Participações e Crefipar não são partes do procedimento, mas poderão se manifestar caso desejem. A possibilidade de apresentação de argumentos permite que os envolvidos contribuam para a análise, embora o material não indique prazo ou resultado previsto para a conclusão da agência.
O Vasco aparece diretamente ligado à apuração porque compartilhou documentos relativos à proposta de investimento. A negociação envolve a transferência do comando da SAF para o grupo de Lamacchia, mas a operação ainda precisa superar a avaliação regulatória relacionada às regras de propriedade e influência no futebol.
Defesa prevê continuidade da operação
O advogado André Sica, representante de Marcos Lamacchia na operação de compra da SAF do Vasco, afirmou ao ge, em julho, que mantinha contato com a Anresf. Na ocasião, o defensor declarou que a transação seria concluída mesmo com eventuais ressalvas apresentadas pela agência.
Sica também afirmou que o Vasco vinha tratando do assunto com a Anresf havia bastante tempo. De acordo com o advogado, Lamacchia teria condições de implementar qualquer solução que fosse proposta pela agência ou pela CBF. A declaração indica a disposição da representação do empresário de ajustar a operação caso sejam exigidas mudanças para atender às regras aplicáveis.
Essa posição, porém, não antecipa a decisão da Anresf. O procedimento ainda está no estágio de investigação, e a agência não concluiu se há conflito decorrente da relação familiar entre Lamacchia e Leila Pereira. Até que essa avaliação seja encerrada, as medidas cautelares continuam limitando relações esportivas, comerciais e financeiras entre o Vasco, o Palmeiras e a Crefisa.
O caso reúne, assim, dois processos que caminham em paralelo: a tentativa de transferência da SAF vascaína para o grupo de Lamacchia e a análise regulatória sobre os possíveis efeitos dessa operação. A definição dependerá da interpretação da Anresf sobre controle, influência significativa e alcance das regras de Fair Play Financeiro no caso concreto.